sábado, 1 de agosto de 2026

 


 Violência contra a mulher 

não tem idade


Reconhecer, acolher e proteger também é responsabilidade de todos


Por Denise Canabrava — Gerontóloga



Agosto chega vestido de lilás para lembrar uma realidade que não pode continuar escondida atrás das portas, das aparências ou do silêncio: milhares de mulheres convivem com diferentes formas de violência dentro de ambientes que deveriam representar segurança, respeito e proteção.


O Agosto Lilás é uma campanha de conscientização e enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. A mobilização está relacionada à Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, uma das principais referências brasileiras na proteção dos direitos das mulheres. A legislação reconhece que a violência doméstica e familiar é uma violação dos direitos humanos.


Falar sobre violência contra a mulher é necessário durante todo o ano. Em agosto, porém, essa voz precisa ganhar ainda mais força para alcançar mulheres de todas as idades, inclusive aquelas que passaram décadas acreditando que deveriam suportar, esconder ou silenciar aquilo que viviam.


Nem toda violência deixa marcas visíveis


Quando se fala em violência, muitas pessoas pensam imediatamente em agressões físicas. Entretanto, uma mulher pode estar sendo profundamente ferida sem apresentar uma única marca aparente no corpo.


A Lei Maria da Penha reconhece cinco formas de violência doméstica e familiar: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.


A violência física acontece por meio de condutas que atingem o corpo ou a saúde da mulher.


A violência psicológica pode aparecer em ameaças, humilhações, manipulação, vigilância, chantagem, isolamento, desvalorização e controle constante. Aos poucos, a mulher pode perder a confiança em si mesma e começar a acreditar que não é capaz de tomar decisões ou viver sem aquela pessoa.


A violência moral ocorre por meio de acusações, ofensas, difamações e tentativas de destruir a reputação da mulher.


A violência sexual acontece quando sua vontade, liberdade e consentimento não são respeitados.


Já a violência patrimonial envolve a retenção, subtração ou destruição de dinheiro, documentos, bens, objetos e recursos que pertencem à mulher.


Por isso, é importante compreender:


«A violência não começa somente quando alguém levanta a mão. Muitas vezes, ela começa quando uma mulher perde o direito de falar, escolher, sair, trabalhar, administrar o próprio dinheiro e ser quem é.»


O silêncio construído ao longo dos anos


Nem sempre o silêncio significa que não existe sofrimento.


Muitas mulheres aprenderam, desde muito jovens, que os problemas familiares não deveriam ser contados. Foram ensinadas a preservar relacionamentos a qualquer custo, a suportar humilhações e a acreditar que pedir ajuda significaria fracasso, desobediência ou vergonha.


Algumas passaram anos ouvindo frases como:


“Isso é normal em todo relacionamento.”


“Ele age assim porque se preocupa com você.”


“Você não conseguiria viver sozinha.”


“Depois de tantos anos, não vale a pena mudar.”


Essas palavras podem aprisionar uma mulher em uma realidade de medo e dependência.


O tempo de convivência não transforma violência em normalidade. O casamento, o parentesco, a dependência financeira, a idade, a condição de saúde ou os vínculos afetivos não retiram de nenhuma mulher o direito à dignidade.


Por que uma mulher pode permanecer em silêncio?


Não existe uma única resposta.


A mulher pode sentir medo das ameaças, vergonha de contar o que acontece, dependência econômica, preocupação com os filhos, insegurança quanto ao futuro ou receio de não ser acreditada.


Ela também pode estar emocionalmente fragilizada depois de ouvir, repetidamente, que é culpada pela violência ou incapaz de reconstruir sua vida.


Em outros casos, o agressor alterna períodos de violência com pedidos de desculpas, promessas de mudança e momentos de aparente cuidado. Isso pode gerar confusão, esperança e dificuldade para reconhecer a gravidade da situação.


Por essa razão, perguntas como “Por que ela não foi embora antes?” ou “Por que permitiu que isso acontecesse?” não ajudam.


A responsabilidade pela violência nunca é da mulher que a sofreu.


A pergunta que precisa ser feita é:


«Como podemos ajudá-la a recuperar sua segurança, sua autonomia e o direito de decidir sobre a própria vida?»


Quando a violência acontece dentro da família


O lar deveria ser um espaço de proteção. Entretanto, a violência pode ser praticada por companheiros, ex-companheiros, filhos, netos, irmãos, cuidadores ou outras pessoas próximas.


Quando o agressor faz parte da família, reconhecer e denunciar a situação pode se tornar ainda mais difícil. A mulher pode amar aquela pessoa, depender de seus cuidados, temer o rompimento dos vínculos ou sentir culpa por procurar ajuda.


É justamente por isso que a família não pode ser tratada como um espaço no qual tudo deve permanecer em segredo.


Nenhum vínculo familiar autoriza humilhações, ameaças, agressões, negligência, abandono ou apropriação de bens.


Proteger uma família não significa esconder a violência. Significa interrompê-la.


Violência contra a mulher idosa: uma realidade escondida


A violência contra a mulher não termina quando ela envelhece. Em algumas situações, o avanço da idade pode ampliar sua vulnerabilidade, especialmente quando existem limitações físicas, dependência para os cuidados cotidianos, isolamento social ou dificuldades de acesso a informações e serviços.


A mulher idosa pode sofrer as mesmas formas de violência previstas na Lei Maria da Penha e também outras violações relacionadas à sua condição de pessoa idosa.


Entre elas, podem estar:


  • retenção de documentos, cartões bancários ou aposentadoria;

  • realização de empréstimos sem sua compreensão ou autorização;

  • pressão para assinatura de procurações e transferência de bens;

  • controle total de seu dinheiro;

  • abandono ou negligência;

  • privação de alimentação, medicamentos e cuidados;

  • impedimento de receber visitas ou sair de casa;

  • ameaças de institucionalização;

  • humilhações relacionadas à idade;

  • desconsideração de sua vontade e de suas decisões.


A legislação brasileira protege o direito da pessoa idosa ao respeito, à liberdade e à dignidade, e também considera crime reter cartão bancário, benefício, pensão ou documentos com a finalidade de obter vantagens ou assegurar dívidas.


A violência patrimonial e financeira contra pessoas idosas pode ocorrer justamente por meio de quem deveria protegê-las. O Ministério dos Direitos Humanos orienta que suspeitas ou situações de violência contra a pessoa idosa sejam comunicadas ao Disque 100.


É importante lembrar:


«A aposentadoria pertence à mulher idosa. Seus bens pertencem a ela. Sua história pertence a ela. E suas decisões devem ser respeitadas enquanto ela possuir condições para exercê-las.»


Envelhecer não significa perder o direito de escolher.


Sinais que merecem atenção


Algumas mudanças podem indicar que uma mulher está vivendo uma situação de violência:


  • medo excessivo de determinada pessoa;

  • afastamento repentino de familiares e amigos;

  • abandono de atividades de que gostava;

  • tristeza, ansiedade ou insegurança constantes;

  • dificuldade para falar livremente;

  • necessidade de pedir permissão para tudo;

  • explicações frequentes para o comportamento agressivo de alguém;

  • falta de acesso ao próprio dinheiro;

  • desaparecimento de documentos, objetos ou bens;

  • mudanças financeiras sem explicação;

  • aparência de negligência ou falta de cuidados;

  • lesões recorrentes acompanhadas de justificativas pouco claras;

  • vigilância constante sobre telefone, roupas, amizades e horários.


Um sinal isolado não confirma necessariamente uma situação de violência. Entretanto, mudanças persistentes não devem ser ignoradas.


Observar não significa invadir. Significa estar disponível para escutar e proteger.


Acolher sem julgar


Quando uma mulher encontra coragem para falar, sua primeira necessidade pode não ser receber ordens ou cobranças. Ela precisa sentir que sua palavra será respeitada.


Acolher significa:


escutar sem interromper;


acreditar no relato;


não culpabilizar;


não minimizar o sofrimento;


não pressionar para que tome decisões imediatas;


ajudá-la a conhecer seus direitos;


respeitar seu tempo, sempre considerando a necessidade de proteção diante de riscos;


buscar apoio profissional e serviços especializados.


Frases como “Você deveria ter saído antes”, “Eu já tinha avisado” ou “Pense bem para não destruir sua família” aumentam a culpa e o isolamento.


Palavras mais acolhedoras seriam:


“Eu acredito em você.”


“Você não tem culpa.”


“Você não está sozinha.”


“Sua segurança importa.”


“Vamos buscar ajuda e conhecer os caminhos disponíveis.”


A escuta não resolve tudo sozinha, mas pode representar o primeiro lugar seguro encontrado por uma mulher depois de muito tempo.


Reconstruir também é um processo


Sair de uma situação de violência não significa que todas as consequências desaparecem imediatamente.


A mulher pode precisar reconstruir sua autoestima, sua autonomia financeira, seus vínculos sociais, sua confiança e sua percepção de segurança. Esse processo pode envolver acompanhamento psicológico, assistência social, orientação jurídica, atendimento de saúde, proteção policial e fortalecimento da rede familiar e comunitária.


Para a mulher idosa, a reconstrução também pode incluir a recuperação do controle sobre sua aposentadoria, seus documentos, sua residência, sua rotina e suas decisões.


Não devemos perguntar apenas se a violência terminou.


Precisamos perguntar:


Ela está segura?


Está sendo ouvida?


Recuperou o acesso aos próprios recursos?


Participa das decisões sobre sua vida?


Possui uma rede de apoio?


Consegue voltar a fazer planos?


A proteção precisa ser acompanhada pela devolução da autonomia.


A responsabilidade é de todos


O enfrentamento à violência contra a mulher não pertence somente à vítima, à polícia ou aos serviços especializados.


Ele também depende de familiares, vizinhos, amigos, profissionais da saúde, lideranças religiosas, instituições, escolas, empresas e de toda a comunidade.


Não podemos continuar tratando gritos, ameaças, controle, humilhações e exploração financeira como assuntos particulares que não devem receber interferência.


A violência pode acontecer dentro de uma residência, mas suas consequências atingem toda a sociedade.


Reconhecer é o primeiro passo.


Acolher pode salvar uma vida.


Proteger é uma responsabilidade coletiva.


Onde procurar ajuda


O Ligue 180Central de Atendimento à Mulher oferece orientação sobre direitos, informa a localização de serviços especializados e recebe denúncias. O atendimento é gratuito, funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, e também está disponível pelo WhatsApp (61) 9610-0180.


Em situação de emergência ou risco imediato, deve-se acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.


Para comunicar violações de direitos contra pessoas idosas, inclusive situações de negligência, violência psicológica, financeira ou patrimonial, está disponível o Disque 100. As denúncias pelo Disque 100 e pelo Ligue 180 são gratuitas, podem ser anônimas e recebem protocolo para acompanhamento.


Uma campanha que precisa continuar além de agosto


Que o lilás de agosto não seja apenas uma cor no calendário.


Que ele represente olhos atentos para reconhecer, ouvidos disponíveis para escutar, mãos responsáveis para acolher e uma sociedade disposta a proteger.


Que nenhuma mulher seja considerada velha demais para recomeçar, frágil demais para ser ouvida ou dependente demais para ter seus direitos respeitados.


Toda mulher tem direito a viver sem medo.


Toda mulher tem direito à própria voz.


Toda mulher tem direito à proteção, à liberdade e à dignidade.


Porque a violência contra a mulher não tem idade.


E o compromisso de enfrentá-la também não pode ter prazo para terminar.


Denise Canabrava

Gerontóloga


NOVAS RAÍZES — Porque toda vida importa.




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