A memória é a própria vida guardada.
Ela não é apenas uma capacidade da mente.
A memória é feita de experiências, afetos, vínculos, rotinas, escolhas e histórias que se acumulam ao longo da existência.
Ela está no cheiro de uma comida que lembra a infância.
Na música que faz alguém recordar uma pessoa querida.
Na casa onde tantos acontecimentos foram vividos.
No toque de uma mão conhecida.
No abraço que transmite segurança.
Na rotina construída durante anos.
Nos nomes, nos lugares, nas lembranças e também nos sentimentos que ajudam cada pessoa a reconhecer quem é.
Por isso, quando falamos em memória, não estamos falando apenas sobre recordar informações.
Estamos falando sobre identidade.
Sobre continuidade.
Sobre pertencimento.
Sobre a possibilidade de permanecer conectado à própria história.
Quando uma pessoa começa a dizer que sua memória mudou, talvez o primeiro impulso seja observar aquilo que ela esqueceu.
Mas a Gerontologia nos convida a ampliar esse olhar.
Porque a memória não vive sozinha.
Ela depende de um corpo que precisa dormir, alimentar-se, movimentar-se e receber cuidados.
Depende de uma mente que pode estar atravessando ansiedade, tristeza, luto ou sobrecarga.
Depende de uma audição que precisa captar aquilo que será lembrado.
De uma visão que ajuda a interpretar o ambiente.
De uma rotina que ofereça organização.
De vínculos que mantenham a pessoa conectada à vida.
De oportunidades para conversar, escolher, participar, aprender e continuar exercendo aquilo que ainda consegue realizar.
É por isso que uma queixa de memória não deve ser reduzida a uma pergunta.
"O que você está esquecendo?"
Talvez precisamos perguntar também:
Como você está vivendo?
Como está seu sono?
Como está seu corpo?
Como estão suas emoções?
Como está sua rotina?
Você continua participando daquilo que é importante para você?
Essas perguntas mudam o cuidado
Elas retiram o foco exclusivo da falha e devolvem a atenção para a pessoa inteira.
Foi a partir dessa compreensão que nasceu esta série especial do Jornal NOVAS RAÍZES:
A MEMÓRIA NÃO VIVE SOZINHA
Uma série para compreender aquilo que existe por trás das queixas de memória e ampliar o olhar sobre cognição, envelhecimento e cuidado.
Ao longo dos próximos artigos, vamos conversar sobre a diferença sobre Reabilitação Cognitiva e Estimulação Cognitiva, sono, emoções, saúde física, audição, visão, medicamentos, rotina, vínculos, autonomia, funcionalidade e tantos outros fatores que podem influenciar a maneira como uma pessoa pensa, lembra e vive.
Porque cuidar da memória não significa apenas tentar preservar lembranças.
Significa preservar, pelo maior tempo possível, aquilo que dá sentido a essas lembranças:
a pessoa, sua história, sua autonomia, seus vínculos e seu lugar no mundo.
"A memória é a própria vida guardada. Não é só uma capacidade da mente: ela é feita de cada toque, cada abraço, cada rotina compartilhada e cada sentimento que vivemos.
Cuidar dela é, acima de tudo, cuidar das pessoas, das histórias e dos laços que fazem com que cada um continue sendo quem realmente é."
Denise Canabrava
Gerontóloga

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