Por Denise CanabravaÁrea: Gerontologia | Saúde Mental | Depressão | Prevenção | Cuidado Humanizado
“Nem todo silêncio na velhice é tranquilidade. Às vezes, ele esconde tristeza profunda, solidão, desesperança e um pedido de ajuda que ainda não encontrou palavras.”
Setembro chega trazendo uma campanha que precisa ultrapassar as cores, os laços e as publicações nas redes sociais.
O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre valorização da vida e prevenção do suicídio. No Brasil, 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
Mas existe uma população que também precisa ocupar espaço nessa conversa:
as pessoas idosas.
Quando uma pessoa mais velha começa a se isolar, perder o interesse por atividades que antes lhe davam prazer, demonstra desesperança ou passa a dizer que não faz mais falta, algumas famílias podem interpretar essas mudanças simplesmente como consequências da idade.
E é justamente aí que mora um grande perigo.
Depressão não é uma consequência normal do envelhecimento
Envelhecer envolve mudanças.
Podem ocorrer aposentadoria, lutos, alterações na saúde, redução da mobilidade, mudanças familiares e perdas de papeis sociais. Algumas pessoas também enfrentam solidão, dependência, dificuldades financeiras ou redução de sua participação na comunidade.
Essas experiências podem afetar profundamente a saúde emocional
Mas sofrimento psíquico persistente não deve ser naturalizado como "coisa da idade".
A Organização Mundial da Saúde alerta que depressão e ansiedade estão entre os transtornos mentais mais comuns na população idosa e que problemas de saúde mental nessa fase da vida frequentemente não são reconhecidos nem tratados adequadamente.
Dizer:
"É normal, ele está velho."
"Ela ficou assim depois que envelheceu."
"Idoso é mais quieto mesmo."
podem fazer com que um sofrimento que necessita de atenção permaneça invisível.
A pessoa não precisa estar chorando para estar sofrendo
Esse é um ponto que as famílias precisam conhecer.
O sofrimento emocional nem sempre aparece na forma que imaginamos.
Além de tristeza, podem surgir perda de interesse ou prazer, retraimento, alterações do sono, de fadiga, irritabilidade, desesperança e pensamentos negativos.
Na pessoa idosa, também precisamos prestar atenção a mudanças de comportamento, afastamento de familiares e amigos, abandono de atividades significativas e falas que indiquem perda de sentido ou de perspectiva de futuro.
Nenhum sinal isolado permite diagnosticar depressão.
O diagnóstico deve ser realizado por profissional habilitado.
Mas mudanças persistentes merecem ser percebidas e investigadas.
Existem frases que não deveriam ser ignoradas
Às vezes, a pessoa não diz diretamente:
“Estou pensando em morrer.”
Ela pode dizer:
“Já vivi o que tinha para viver.”
“Não faço falta para ninguém.”
“Sou um peso para meus filhos.”
“Vocês ficariam melhor sem mim.”
“Não tenho mais motivo para continuar.”
Comentários de desesperança, despedidas, abandono de planos para o futuro e manifestações relacionadas à morte precisam ser levados a sério. O Ministério da Saúde recomenda acolher sem julgamento e buscar ajuda profissional diante de sinais de risco.
Não é hora de responder:
“Pare de falar bobagem.”
“Você tem tudo e ainda reclama.”
“Isso é falta de força de vontade.”
É hora de escutar.
Perguntar não é suficiente se não estivermos preparados para ouvir
Muitas vezes perguntamos:
“Está tudo bem?”
E recebemos:
“Está.”
Mas alguma coisa no comportamento daquela pessoa diz exatamente o contrário.
Talvez seja necessário permanecer um pouco mais.
Sentar ao lado.
Perguntar novamente.
Ou dizer:
“Tenho percebido você mais quieto ultimamente. Estou preocupado e quero ouvir você.”
Escutar não significa ter todas as respostas.
Significa permitir que o sofrimento encontre um lugar onde possa ser expresso sem julgamento.
Perguntar como alguém está é importante. Estar verdadeiramente disponível para ouvir a resposta é cuidado.
A Gerontologia amplia nosso olhar
Saúde mental na velhice não pode ser analisada isoladamente.
Precisamos olhar para a pessoa inteira.
Como está sua saúde?
Ela sente dor?
Consegue sair de casa?
Possui autonomia?
Participa das decisões familiares?
Tem com quem conversar?
Mantém vínculos?
Perdeu recentemente alguém importante?
Ainda participa de atividades que considera significativas?
Sente-se pertencente à família e à comunidade?
A OMS chama atenção justamente para fatores como isolamento social e solidão, além de condições de saúde, perdas e outros acontecimentos adversos, na saúde mental das pessoas idosas.
Isso nos leva a uma reflexão importante:
não basta acrescentar anos à vida se retirarmos da pessoa tudo aquilo que fazia esses anos terem significado.
A família pode ser uma poderosa rede de proteção
A família não substitui tratamento profissional.
Mas pode perceber mudanças.
Pode acolher.
Pode acompanhar uma consulta.
Pode incentivar a continuidade do tratamento.
Pode favorecer convivência e participação.
Pode respeitar escolhas e autonomia.
Pode ajudar a reconstruir rotina, vínculos e atividades significativas.
E, principalmente, pode evitar que a pessoa enfrente sozinha um sofrimento que já está pesado demais.
Presença não significa vigiar.
Cuidado não significa controlar.
Estar perto significa fazer com que aquela pessoa saiba que continua pertencendo.
VOCÊ SABIA?
Segundo a OMS, aproximadamente 14,1% das pessoas com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno mental. A organização também estima que cerca de um sexto das mortes por suicídio no mundo ocorre entre pessoas com 70 anos ou mais.
Esses números nos lembram que saúde mental da pessoa idosa não é um assunto secundário.
É questão de saúde pública, cuidado e dignidade.
A GERONTOLOGIA EXPLICA
Depressão tem tratamento
Reconhecer sofrimento não significa determinar que uma pessoa esteja com depressão.
Tristeza, luto e depressão não são sinônimos, embora possam compartilhar algumas manifestações.
Quando existem sintomas persistentes ou mudanças importantes no comportamento e na funcionalidade, é necessária avaliação adequada.
No SUS, a pessoa pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em situações de emergência, os serviços indicados pelo Ministério da Saúde incluem SAMU 192, UPA, pronto-socorro e hospitais.
E diante de risco imediato?
Se uma pessoa disser que pretende morrer, apresentar comportamento que indique risco imediato ou estiver em uma crise grave, não a deixe sozinha e procure atendimento de emergência.
O CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente e 24 horas por dia.
Centro de Valorização da Vida — CVV
Em uma emergência, também podem ser procurados SAMU 192, UPA, pronto-socorro ou hospital.
O Disque 100, que aparece em nossa capa, tem outra finalidade: recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas idosas. O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia.
AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA
O que este artigo nos ensina?
Talvez uma das formas mais importantes de prevenção seja aprender a não naturalizar o sofrimento da pessoa idosa.
Não presumir que isolamento é simplesmente idade.
Não tratar desesperança como drama.
Não chamar sofrimento emocional de fraqueza.
Não considerar perda de propósito uma consequência inevitável da velhice.
Precisamos continuar oferecendo oportunidades de pertencimento, participação, autonomia, convivência e significado.
Porque cuidar da saúde mental também é perguntar:
“O que ainda faz sentido para você?”
“Do que você sente falta?”
“O que gostaria de voltar a fazer?”
“Como posso estar ao seu lado?”



