terça-feira, 8 de setembro de 2026


 

SETEMBRO AMARELO

Quando o silêncio pesa - 
Depressão na pessoa idosa também precisa ser vista
Reconhecer sinais, acolher o sofrimento e buscar ajuda pode salvar vidas

Por Denise Canabrava

Área: Gerontologia | Saúde Mental | Depressão | Prevenção | Cuidado Humanizado


“Nem todo silêncio na velhice é tranquilidade. Às vezes, ele esconde tristeza profunda, solidão, desesperança e um pedido de ajuda que ainda não encontrou palavras.”

Setembro chega trazendo uma campanha que precisa ultrapassar as cores, os laços e as publicações nas redes sociais.

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre valorização da vida e prevenção do suicídio. No Brasil, 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

Mas existe uma população que também precisa ocupar espaço nessa conversa:

as pessoas idosas.

Quando uma pessoa mais velha começa a se isolar, perder o interesse por atividades que antes lhe davam prazer, demonstra desesperança ou passa a dizer que não faz mais falta, algumas famílias podem interpretar essas mudanças simplesmente como consequências da idade.

E é justamente aí que mora um grande perigo.

Depressão não é uma consequência normal do envelhecimento

Envelhecer envolve mudanças.

Podem ocorrer aposentadoria, lutos, alterações na saúde, redução da mobilidade, mudanças familiares e perdas de papeis sociais. Algumas pessoas também enfrentam solidão, dependência, dificuldades financeiras ou redução de sua participação na comunidade.

Essas experiências podem afetar profundamente a saúde emocional

Mas sofrimento psíquico persistente não deve ser naturalizado como "coisa da idade".

A Organização Mundial da Saúde alerta que depressão e ansiedade estão entre os transtornos mentais mais comuns na população idosa e que problemas de saúde mental nessa fase da vida frequentemente não são reconhecidos nem tratados adequadamente.

Dizer: 

"É normal, ele está velho."

         "Ela ficou assim depois que envelheceu."

         "Idoso é mais quieto mesmo."

         podem fazer com que um sofrimento que necessita de atenção permaneça invisível.


         A pessoa não precisa estar chorando para estar sofrendo

         Esse é um ponto que as famílias precisam conhecer.

        O sofrimento emocional nem sempre aparece na forma que imaginamos.

        Além de tristeza, podem surgir perda de interesse ou prazer, retraimento, alterações do sono, de              fadiga,  irritabilidade, desesperança e pensamentos negativos. 

Na pessoa idosa, também precisamos prestar atenção a mudanças de comportamento, afastamento de familiares e amigos, abandono de atividades significativas e falas que indiquem perda de sentido ou de perspectiva de futuro.

 Nenhum sinal isolado permite diagnosticar depressão.

O diagnóstico deve ser realizado por profissional habilitado.

Mas mudanças persistentes merecem ser percebidas e investigadas. 

  

 Existem frases que não deveriam ser ignoradas

Às vezes, a pessoa não diz diretamente:

“Estou pensando em morrer.”

Ela pode dizer:

“Já vivi o que tinha para viver.”

“Não faço falta para ninguém.”

“Sou um peso para meus filhos.”

“Vocês ficariam melhor sem mim.”

“Não tenho mais motivo para continuar.”

Comentários de desesperança, despedidas, abandono de planos para o futuro e manifestações relacionadas à morte precisam ser levados a sério. O Ministério da Saúde recomenda acolher sem julgamento e buscar ajuda profissional diante de sinais de risco. 

Não é hora de responder:

“Pare de falar bobagem.”

“Você tem tudo e ainda reclama.”

“Isso é falta de força de vontade.”

É hora de escutar.

        

 Perguntar não é suficiente se não estivermos preparados para ouvir

Muitas vezes perguntamos:

“Está tudo bem?”

E recebemos:

“Está.”

Mas alguma coisa no comportamento daquela pessoa diz exatamente o contrário.

Talvez seja necessário permanecer um pouco mais.

Sentar ao lado.

Perguntar novamente.

Ou dizer:

“Tenho percebido você mais quieto ultimamente. Estou preocupado e quero ouvir você.”

Escutar não significa ter todas as respostas.

Significa permitir que o sofrimento encontre um lugar onde possa ser expresso sem julgamento.

Perguntar como alguém está é importante. Estar verdadeiramente disponível para ouvir a resposta é cuidado.

 A Gerontologia amplia nosso olhar

Saúde mental na velhice não pode ser analisada isoladamente.

Precisamos olhar para a pessoa inteira.

Como está sua saúde?

Ela sente dor?

Consegue sair de casa?

Possui autonomia?

Participa das decisões familiares?

Tem com quem conversar?

Mantém vínculos?

Perdeu recentemente alguém importante?

Ainda participa de atividades que considera significativas?

Sente-se pertencente à família e à comunidade?

A OMS chama atenção justamente para fatores como isolamento social e solidão, além de condições de saúde, perdas e outros acontecimentos adversos, na saúde mental das pessoas idosas. 

Isso nos leva a uma reflexão importante:

não basta acrescentar anos à vida se retirarmos da pessoa tudo aquilo que fazia esses anos terem significado.

  

A família pode ser uma poderosa rede de proteção

A família não substitui tratamento profissional.

Mas pode perceber mudanças.

Pode acolher.

Pode acompanhar uma consulta.

Pode incentivar a continuidade do tratamento.

Pode favorecer convivência e participação.

Pode respeitar escolhas e autonomia.

Pode ajudar a reconstruir rotina, vínculos e atividades significativas.

E, principalmente, pode evitar que a pessoa enfrente sozinha um sofrimento que já está pesado demais.

Presença não significa vigiar.

Cuidado não significa controlar.

Estar perto significa fazer com que aquela pessoa saiba que continua pertencendo.

 

VOCÊ SABIA?

Segundo a OMS, aproximadamente 14,1% das pessoas com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno mental. A organização também estima que cerca de um sexto das mortes por suicídio no mundo ocorre entre pessoas com 70 anos ou mais. 

Esses números nos lembram que saúde mental da pessoa idosa não é um assunto secundário.

É questão de saúde pública, cuidado e dignidade. 

 

A GERONTOLOGIA EXPLICA

Depressão tem tratamento

Reconhecer sofrimento não significa determinar que uma pessoa esteja com depressão.

Tristeza, luto e depressão não são sinônimos, embora possam compartilhar algumas manifestações.

Quando existem sintomas persistentes ou mudanças importantes no comportamento e na funcionalidade, é necessária avaliação adequada.

No SUS, a pessoa pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em situações de emergência, os serviços indicados pelo Ministério da Saúde incluem SAMU 192, UPA, pronto-socorro e hospitais. 

 E diante de risco imediato?

Se uma pessoa disser que pretende morrer, apresentar comportamento que indique risco imediato ou estiver em uma crise grave, não a deixe sozinha e procure atendimento de emergência.

O CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente e 24 horas por dia. 

Centro de Valorização da Vida — CVV

Em uma emergência, também podem ser procurados SAMU 192, UPA, pronto-socorro ou hospital. 

O Disque 100, que aparece em nossa capa, tem outra finalidade: recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas idosas. O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia.

 

AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA

O que este artigo nos ensina?

Talvez uma das formas mais importantes de prevenção seja aprender a não naturalizar o sofrimento da pessoa idosa.

Não presumir que isolamento é simplesmente idade.

Não tratar desesperança como drama.

Não chamar sofrimento emocional de fraqueza.

Não considerar perda de propósito uma consequência inevitável da velhice.

Precisamos continuar oferecendo oportunidades de pertencimento, participação, autonomia, convivência e significado.

Porque cuidar da saúde mental também é perguntar:

“O que ainda faz sentido para você?”

“Do que você sente falta?”

“O que gostaria de voltar a fazer?”

“Como posso estar ao seu lado?”









 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

PORTAL PLENA

 





Meu agradecimento ao Portal Plena pela republicação d meu artigo " O Cérebro de Amanhã Começa a Ser Cuidado Hoje".

https://portalplena.com/o-cerebro-de-amanha-comeca-a-ser-cuidado-hoje/ 

 É muito gratificante ver o conhecimento criando novas raízes e chegando a mais pessoas.

                    Obrigada pelo espaço e pela confiança em nosso trabalho! 

                    Plantamos conhecimento. Cultivamos respeito. Colhemos dignidade.


NOSSA HISTÓRIA COMEÇA NO LAR

 


NOSSA HISTÓRIA COMEÇA NO LAR

Porque nosso lar não é somente um endereço. É memória, identidade, pertencimento e vida.

Por Denise Canabrava

Área: Gerontologia | Envelhecimento no Lugar | Autonomia | Memória | Qualidade de Vida

https://gerontologadenisecanabrava.blogspot.com/ 

 

          “Uma casa pode ser feita de paredes. Um lar é construído de histórias.”

Existe um lugar onde grande parte da nossa história acontece sem que percebamos.

É onde acordamos pela manhã.

Onde guardamos fotografias.

Onde escolhemos o lugar de cada objeto.

Onde recebemos pessoas.

Onde celebramos conquistas e atravessamos perdas.

Onde existem cheiros, sons, móveis, pequenos hábitos e lembranças que talvez não tenham significado para quem chega de fora, mas carregam uma vida inteira para quem mora ali.

Esse lugar é o lar.

E quando envelhecemos, ele pode adquirir um significado ainda mais profundo.

 

Não são apenas quatro paredes

Para compreender a relação da pessoa idosa com sua casa, precisamos abandonar por alguns instantes o olhar puramente físico.

Uma poltrona antiga pode parecer apenas um móvel.

Para alguém, pode ser o lugar onde o companheiro se sentava todas as noites.

Uma xícara pode parecer velha.

Talvez tenha pertencido à mãe.

Uma fotografia na parede pode não combinar com a decoração.

Mas pode guardar cinquenta anos de uma história familiar.

A mesa da cozinha talvez esteja desgastada.

Mas quantas conversas aconteceram ao redor dela?

É por isso que, em Gerontologia, o ambiente não pode ser analisado somente pelo que possui.


Precisamos compreender aquilo que ele representa.

“Eu quero continuar na minha casa”

Essa frase é ouvida por muitas famílias.

Às vezes, os filhos interpretam:

“Meu pai está sendo teimoso.”

“Minha mãe não entende que seria melhor morar conosco.”

Mas talvez exista outra pergunta a fazer:

O que permanecer nessa casa significa para essa pessoa?

Pode significar autonomia.

Privacidade.

Continuidade.

Vizinhança.

Rotina.

Memória.

Pertencimento.

Pode significar continuar indo à mesma padaria, conversando com a vizinha, frequentando a igreja do bairro ou simplesmente acordando e reconhecendo o mundo ao redor.

O conceito internacional de ageing in place, ou envelhecimento no lugar, ajuda justamente a compreender o desejo e a possibilidade de envelhecer no ambiente e na comunidade onde a pessoa construiu vínculos, desde que existam condições adequadas de segurança, suporte e cuidado.

 

O lar também sustenta identidade

Existe algo particularmente importante aqui.

Ao longo do envelhecimento, muitos papéis podem mudar.

A pessoa se aposenta.

Os filhos saem de casa.

O companheiro pode falecer.

O corpo pode apresentar novas limitações.

A rotina se transforma.

Nesse cenário, objetos, ambientes, hábitos e relações construídos ao longo de décadas podem funcionar como referências de continuidade.

É como se aquele espaço dissesse silenciosamente:

“Sua história continua aqui.”

Por isso, modificar completamente o ambiente de uma pessoa idosa sem ouvi-la pode significar muito mais do que trocar móveis.

Pode significar mexer em referências importantes de sua identidade e de sua maneira de viver.

Mas permanecer em casa precisa ser seguro

Valorizar o lar não significa romantizar riscos.

Uma casa que funcionou perfeitamente durante quarenta anos pode precisar de adaptações quando mobilidade, equilíbrio, visão, força ou outras capacidades mudam.

Tapetes soltos podem favorecer quedas.

Iluminação insuficiente pode dificultar deslocamentos.

Banheiros podem necessitar de adaptações.

Objetos utilizados diariamente podem precisar ficar mais acessíveis.

Escadas podem exigir atenção especial.

Aqui surge um princípio importante:

Adaptar a casa não significa retirar dela sua história.

Podemos aumentar a segurança preservando, tanto quanto possível, familiaridade, preferências e participação da pessoa idosa nas decisões.

Adaptar com a pessoa, não apenas para a pessoa

Imagine chegar à sua própria casa e descobrir que alguém retirou seus móveis, mudou objetos de lugar, reorganizou seus pertences e decidiu que aquilo seria “melhor para você”.

Mesmo quando existe uma justificativa de segurança, a forma como fazemos importa.

Sempre que possível, devemos explicar.

Perguntar.

Negociar.

Experimentar soluções.

Ouvir preferências.

Uma adaptação ambiental bem pensada não deveria simplesmente dizer:

“Agora sua casa será assim.”

Deveria perguntar:

“Como podemos tornar sua casa mais segura sem deixar de parecer a sua casa?”

Essa pequena mudança de perspectiva preserva algo precioso:

protagonismo.

Lar, memória e orientação

Ambientes familiares também podem fornecer referências importantes para algumas pessoas com alterações cognitivas.

Fotografias, objetos conhecidos, disposição familiar dos espaços, iluminação adequada, sinalizações simples quando necessárias e rotinas previsíveis podem favorecer orientação e segurança.

Mas novamente precisamos evitar uma solução única para todos.

Cada pessoa possui uma história, capacidades e necessidades diferentes.

O ambiente deve ser pensado para aquela pessoa, e não para uma ideia genérica de “idoso”.

Às vezes, o problema não está dentro da casa

Uma residência pode ser confortável e ainda assim existir isolamento.

Por isso, falar em envelhecer no próprio lar também significa olhar para aquilo que existe do lado de fora da porta.

Há transporte?

Serviços de saúde?

Comércio acessível?

Calçadas seguras?

Vizinhos?

Família?

Amigos?

Espaços de convivência?

Possibilidades de participação social?

Uma pessoa pode morar na mesma casa durante cinquenta anos e, ainda assim, tornar-se prisioneira dela se perder todas as condições de circular e participar da comunidade.

Por isso, envelhecimento no lugar não significa simplesmente:

“deixar a pessoa idosa dentro de casa.”

Significa criar condições para que ela possa continuar pertencendo à vida que existe ao redor dela.

 

VOCÊ SABIA?

A Organização Mundial da Saúde trabalha com o conceito de ambientes amigos das pessoas idosas, destacando que moradia, transporte, espaços públicos, participação social, comunicação, respeito, inclusão e serviços comunitários influenciam a possibilidade de envelhecer com saúde e participação.

Ou seja:

uma cidade também pode ajudar uma pessoa a permanecer autônoma — ou criar barreiras que a tornem dependente.

 

A GERONTOLOGIA EXPLICA

Permanecer em casa nem sempre será a melhor ou a única possibilidade

Defender a autonomia não significa afirmar que toda pessoa deverá permanecer em sua residência independentemente das circunstâncias.

Algumas situações exigirão maior suporte.

Pode ser necessário cuidador, acompanhamento familiar, adaptações significativas, mudança de residência ou, em determinadas circunstâncias, outros arranjos de cuidado.

O princípio fundamental é que essas decisões sejam tomadas com avaliação responsável e, sempre que possível, com participação ativa da própria pessoa idosa.

A pergunta não deveria ser apenas:

“Onde será mais fácil cuidar dela?”

Também precisamos perguntar:

“Onde e como essa pessoa deseja continuar vivendo?”

 

AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA

O que este artigo nos ensina?

Talvez precisemos olhar novamente para a casa de nossos pais e avós.

Não apenas procurando riscos.

Mas procurando histórias.

Aquela toalha antiga.

O rádio.

A planta na janela.

A fotografia amarelada.

A cadeira preferida.

O quintal.

A receita guardada na gaveta.

O café é servido sempre na mesma xícara.

Tudo isso pode parecer pequeno.

Mas uma vida é construída justamente de milhares dessas pequenas coisas.

E quando ajudamos uma pessoa a envelhecer, não estamos cuidando somente de seu corpo.

Estamos cuidando também da continuidade de sua história.

 

PLANTANDO UMA REFLEXÃO

“Quando uma pessoa idosa diz ‘quero ficar na minha casa’, talvez não esteja falando apenas de paredes. Pode estar dizendo: aqui estão minhas lembranças, minhas escolhas, meus vínculos e uma parte de quem eu sou.”

Por isso, antes de reorganizar, retirar, mudar ou decidir, precisamos conversar.

Antes de transformar a casa em um lugar tecnicamente perfeito, precisamos garantir que ela continue sendo um lar.

Seguro, sim.

Adaptado quando necessário.

Mas também reconhecível.

Afetivo.

Vivo.

E pertencente a quem construiu ali sua história.

Porque nosso lar não é somente um endereço.

É um lugar onde a vida cria raízes.




ESSÊNCIA DO NOVAS RAÍZES
NOVAS RAÍZES — Jornal da Gerontologia
Conhecer • Compreender • Cuidar • Valorizar
Plantamos conhecimento. Cultivamos respeito. Colhemos dignidade.












ALIMENTAR-SE BEM TAMBÉM É CUIDAR DA AUTONOMIA


  

ALIMENTAR-SE BEM TAMBÉM É CUIDAR DA AUTONOMIA

A importância da alimentação adequada para a saúde e a qualidade de vida da pessoa idosa.

Por Denise Canabrava

Gerontologia - Nutrição - Saúde Funcional - Envelhecimento Saudável

https://gerontologadenisecanabrava.blogspot.com/  


"Na velhice, alimentar-se não é apenas nutrir o corpo. É também preservar força, funcionalidade, memória, autonomia e participação na vida"

Com o passar dos anos, muitas mudanças podem interferir na alimentação. O apetite pode diminuir, o paladar e o olfato podem sofrer alterações, dificuldades de mastigação ou deglutição podem aparecer, medicamentos podem interferir na digestão alimentar e algumas pessoas passam a viver sozinhas, perdendo inclusive o prazer de compartilhar as refeições. 

Por isso, quando falamos em alimentação adequada na pessoa idosa, estamos falando de algo muito maior do que escolher determinados alimentos.

Alimentação adequada: por que ela se torna tão importante?

Uma alimentação adequada contribui para a manutenção da saúde ao longo de toda a vida. Na velhice, porém, alguns aspectos merecem atenção especial.

A perda de massa e força muscular, alterações metabólicas, doenças crônicas, uso de múltiplos medicamentos, problemas dentários, dificuldades de mobilidade e mudanças na rotina podem aumentar a vulnerabilidade nutricional.

Isso significa que simplesmente observar se a pessoa idosa “está comendo” não é suficiente.

Precisamos perguntar:

Ela está conseguindo se alimentar adequadamente?

Tem acesso aos alimentos?

Consegue comprar e preparar suas refeições?

Mastiga e engole com segurança?

Perdeu peso sem querer?

Tem prazer em comer?

Está se alimentando sozinha todos os dias?

Essas perguntas transformam nosso olhar.


Alimentação, músculos e independência

Uma das relações mais importantes é aquela entre nutrição e capacidade funcional.

Manter massa muscular e força é fundamental para atividades aparentemente simples: levantar-se da cadeira, caminhar, tomar banho, vestir-se, preparar uma refeição e sair de casa. 

A alimentação adequada, associada à atividade física compatível com as condições individuais, participa da manutenção da saúde muscular e da funcionalidade.

Por isso, cuidar da alimentação também pode significar cuidar da independência.


O cérebro também se alimenta

A saúde cerebral não está separada da saúde do restante do organismo.

Padrões alimentares saudáveis fazem parte das estratégias recomendadas para promoção da saúde e redução de fatores de risco relacionados a doenças crônicas e ao declínio cognitivo. A OMS inclui a alimentação saudável entre as intervenções consideradas na redução do risco de declínio cognitivo e demência.

Mas aqui precisamos manter uma regra importante do NOVAS RAÍZES:

não existem alimentos milagrosos capazes de impedir sozinhos o desenvolvimento de demência.

Uma alimentação adequada integra um conjunto muito maior de cuidados.


E a água?

A hidratação merece atenção especial.

Com o envelhecimento, a percepção da sede pode diminuir. Além disso, dificuldades de mobilidade, dependência para buscar líquidos, medo de incontinência urinária, alterações cognitivas e determinadas condições clínicas podem interferir na ingestão de água. 

Por isso, a hidratação não deve ser esquecida quando pensamos em cuidado nutricional. 

Também não existe uma quantidade universal de água adequada para todas as pessoas idosas. Necessidades individuais e algumas condições de saúde podem exigir orientações específicas.


Comer também é memória, cultura e afeto

Há algo que os números nutricionais não conseguem medir completamente.

Uma refeição também pode carregar uma história.

O cheiro do café.

Uma receita aprendida com a mãe.

O almoço de domingo.

A comida típica de uma região.

A mesa onde a família se encontrava.

A alimentação possui dimensões biológicas, sociais, culturais e afetivas.

Por isso, promover alimentação saudável não deveria significar apagar a história alimentar da pessoa idosa e entregar-lhe simplesmente uma lista de proibições.

Sempre que possível, o cuidado deve considerar preferências, hábitos, cultura, condições econômicas e capacidade funcional.


A Gerontologia nos ensina a olhar também para o ambiente.

Imagine duas pessoas idosas recebendo exatamente a mesma orientação nutricional.

Uma possui renda adequada, mercado próximo, transporte, boa mobilidade e alguém com quem compartilhar as refeiç~eos.

A outra vive sozinha, possui limitações para cozinhar, dificuldades financeiras e pouca renda de apoio.

A recomendação pode ser igual.

A possibilidade de colocá-la em prática não é.

É justamente aqui que a visão gerontológica amplia a discussão.

Ás vezes, o problema não está em saber o que comer.

Está em conseguir comprar, preparar, mastigar, engolir, servir e ter vontade de comer.


Quando a alimentação merece maior atenção?

Mudanças importantes não devem ser consideradas automaticamente "coisas da idade".

Perda de peso involuntária, redução persistente do apetite, fraqueza, dificuldade para mastigar ou engolir, engasgos frequentes, mudanças abruptas na alimentação ou dificuldade crescente para preparar as próprias refeições merecem avaliação profissional.

E isso é especialmente importante porque tanto a desnutrição quanto o excesso de peso e determinadas deficiências nutricionais podem coexistir com doenças crônicas e comprometer a saúde da pessoa idosa.


VOCÊ SABIA?

O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde,  recomenda que a base da alimentação seja formada por alimentos in natura ou minimamente processados e orienta limitar alimentos processados e evitar os ultraprocessados.  A população também valoriza o ato de comer com regularidade, atenção e, sempre que possível, em companhia.

Isso nos lembra de algo precioso: 

alimentação saudável não se resume aos nutrientes. O modo como comemos também importa.


A GERONTOLOGIA EXPLICA                              

Alimentação adequada não significa alimentação perfeita.

Transformar comida em uma sucessão de medos, culpas e proibições pode retirar justamente uma das dimensões mais humanas da alimentação: o prazer.

Existem situações clínicas que exigem restrições e acompanhamento individualizado. 

Nesses casos, a orientação do nutricionista e da equipe de saúde deve ser respeitada.

Mas, de maneira geral, nosso objetivo não deveria ser perseguir uma alimentação "perfeita".

Deveria ser construir uma alimentação adequada, segura, possível, prazerosa e compatível com a realidade daquela pessoa.


AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA

O que este artigo nos ensina?

Alimentar uma pessoa não significa apenas colocar comida no prato.

Precisamos enxergar quem está diante dele.

Sua saúde.

Sua capacidade funcional.

Sua história.

Sua cultura.

Suas preferências.

Sua condição econômica.

Sua autonomia.

E até quem se senta - ou deixou de se sentar - à mesa com ela.

Porque algumas vezes a intervenção necessária estará no alimento.

Em outras, estará na adaptação dos utensílios, na saúde bucal, na avaliação da deglutição, na organização da rotina, no acesso aos alimentos ou simplesmente na reconstrução do prazer de compartilhar uma refeição.


PLANTANDO UMA REFLEXÃO

"Um prato pode oferecer nutrientes. Mas uma alimentação verdadeiramente cuidadosa precisa também preservar escolhas, histórias, prazer e dignidade."

Cuidar da alimentação da pessoa idosa não é controlar cada garfada.

É criar condições para que ela possa continuar se alimentando com segurança, qualidade e, sempre que possível, autonomia.

Porque uma vida longa precisa de nutrientes.

Mas também precisa de força para continuar, prazer para viver e dignidade para escolher.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines. Second edition. Geneva: WHO, 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Healthy diet. Geneva: WHO. A OMS apresenta princípios de uma alimentação saudável e sua importância na prevenção de doenças não transmissíveis.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: WHO. A abordagem ICOPE inclui a avaliação de aspectos relacionados à vitalidade e ao estado nutricional da pessoa idosa.


ESSÊNCIA DO NOVAS RAÍZES

Portal NOVAS RAÍZES - Portal da Gerontologia 

Onde a ciência encontra o cuidado e o conhecimento cria raízes.

Conhecer - Compreender - Cuidar - Valorizar

Plantamos conhecimento. Cultivamos respeito. Colhemos dignidade.

  SETEMBRO AMARELO Quando o silêncio pesa -  Depressão na pessoa idosa também precisa ser vista Reconhecer sinais, acolher o sofrimento e bu...