sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Quando a Emoção Confunde a Memória

 





Quando a Emoção Confunde a Memória


Ansiedade, tristeza, luto, medo e solidão também podem repercutir na cognição


Às vezes, a pessoa diz:

“Minha memória está péssima.”

“Não consigo prestar atenção.”

“Leio e não lembro.”

“Entro em um lugar e esqueço o que fui fazer.”

E imediatamente surge o medo:

“Será que estou começando com demência?”

Mas nem toda dificuldade de memória começa em uma doença neurodegenerativa.

Em alguns momentos, a mente está tentando funcionar enquanto carrega ansiedade, tristeza, luto, medo, estresse ou solidão.

E quando as emoções ocupam espaço demais, atenção, concentração e memória podem sentir os efeitos.

«Às vezes, a memória não falha sozinha. Ela se perde no meio de emoções que ninguém percebeu.»


Para lembrar, primeiro precisamos conseguir prestar atenção

A memória não começa no momento em que tentamos recordar.

Ela começa antes.

Para que uma informação seja lembrada depois, primeiro precisamos percebê-la, prestar atenção e registrá-la.

Imagine alguém muito ansioso.

Enquanto outra pessoa fala, sua mente está ocupada pensando:

“E se algo acontecer?”

“E se eu esquecer?”

“E se eu não conseguir?”

“E se eu estiver doente?”

Parte da atenção deixa de estar na conversa e passa a estar nas preocupações.

Mais tarde, quando alguém pergunta:

“Você não lembra que eu falei isso?”

a pessoa pode realmente não lembrar.

Não necessariamente porque perdeu a capacidade de memória, mas porque a informação foi registrada de forma inadequada.



A ansiedade pode fazer a mente correr mais rápido do que o presente

A ansiedade mantém o organismo em estado de alerta.

A pessoa antecipa problemas, imagina situações, revisita preocupações e tenta controlar aquilo que ainda nem aconteceu.

Nesse estado, permanecer concentrado em uma única tarefa pode se tornar difícil.

Ela começa uma atividade e pensa em outra.

Lê um texto e precisa retornar várias vezes.

Entra em um cômodo e esquece o que pretendia fazer.

Guarda algo enquanto está preocupada e depois não consegue lembrar onde colocou.

Essas experiências podem assustar.

E o próprio medo de esquecer pode aumentar ainda mais a ansiedade.

Forma-se um ciclo:

ansiedade → dificuldade de atenção → esquecimento → medo → mais ansiedade.

Por isso, uma queixa de memória precisa considerar também o estado emocional.



A tristeza pode diminuir interesse, energia e concentração

Quando uma pessoa atravessa tristeza persistente ou depressão, sua relação com o mundo pode mudar.


Atividades antes prazerosas perdem interesse.

Conversas exigem mais esforço.

A iniciativa diminui.

O sono pode mudar.

O corpo parece mais pesado.

Pensar pode se tornar mais lento.

Em algumas pessoas idosas, sintomas depressivos podem aparecer acompanhados de dificuldades cognitivas importantes.

Por isso, tristeza intensa e alterações de memória não devem ser automaticamente atribuídas ao envelhecimento.

A pessoa precisa ser avaliada em sua totalidade.



O luto também atravessa a cognição

Perder alguém não modifica apenas os sentimentos.

Pode modificar toda a rotina.

A cadeira fica vazia.

As refeições mudam.

A casa fica diferente.


As tarefas que antes eram compartilhadas passam a ser realizadas sozinho.

Há decisões novas.

Silêncio.

Saudade.

Preocupações.

Em meio a tudo isso, a pessoa pode perceber maior distração, dificuldade de concentração e esquecimentos.

O luto exige energia emocional.

E é possível que, durante esse processo, a mente não funcione exatamente como antes.

Isso não significa que todo esquecimento durante o luto seja “normal” e deva ser ignorado.

Significa que o contexto precisa ser considerado.


A solidão também ocupa espaço mental

Solidão não é apenas ficar sozinho.

É sentir falta de vínculo.

É não ter com quem conversar.

É não se sentir lembrado.

É perceber que ninguém pergunta como foi o dia.

Quando a vida vai ficando pobre em encontros, conversas, atividades e experiências significativas, também diminuem as oportunidades de exercitar diferentes funções cognitivas no cotidiano.

Uma conversa exige atenção.

Contar uma história exige organização e memória.

Participar de um grupo exige linguagem, tomada de decisão e interação.

Planejar uma visita exige funções executivas.

Conviver também estimula.

Por isso, a saúde cognitiva não pode ser separada da participação social.



O medo de ter demência também pode piorar a percepção da memória

Existe algo muito interessante: quando uma pessoa começa a ficar excessivamente vigilante em relação à própria memória, cada pequeno esquecimento pode parecer enorme.

Ela esquece um nome.

Pensa:

“Está começando.”

Perde uma chave.

Pensa:

“Tenho alguma coisa.”

Não lembra imediatamente uma palavra.

Pensa:

“Estou piorando.”

A partir daí, começa a observar constantemente cada falha.

Mas talvez não perceba todas as coisas que continua lembrando normalmente.

Esse medo merece ser acolhido.

Dizer apenas:

“Pare de pensar nisso.”

não resolve.

Também não ajuda a confirmar uma doença sem avaliação.

O caminho é escutar e investigar.



A sobrecarga também confunde a memória

Uma pessoa pode estar tentando cuidar da casa, acompanhar familiares, administrar contas, resolver problemas, lidar com doenças, manter compromissos e enfrentar preocupações ao mesmo tempo.

Quanto maior a quantidade de demandas, maior a necessidade de atenção, planejamento e organização.

Às vezes, aquilo que parece uma memória pior pode ser uma vida sobrecarregada.

Perguntar:

“Quanto essa pessoa está tentando sustentar?”

pode ser tão importante quanto perguntar:

“Quanto ela está esquecendo?”



Emoção e cognição não vivem em compartimentos separados

Durante muito tempo, fomos acostumados a pensar:

ou é psicológico,

ou é físico,

ou é cognitivo.

Mas a pessoa não funciona assim.

Emoções alteram atenção.

Sono interfere no humor.

Dor afeta concentração.

Isolamento muda a rotina.

Doença física pode gerar medo.

Preocupação pode prejudicar o sono.

Tudo se relaciona.

Por isso, um cuidado verdadeiramente gerontológico não fragmenta a pessoa.

Ele tenta compreender como diferentes dimensões estão interferindo umas nas outras.



Não diga apenas: “É ansiedade”

Também existe um perigo no sentido contrário.

Depois de perceber que emoções podem afetar a cognição, não devemos começar a explicar todo esquecimento dizendo:

“Isso é ansiedade.”

“É só emocional.”

“Você está pensando demais.”

Isso também pode atrasar uma avaliação necessária.

Problemas emocionais e alterações neurocognitivas podem coexistir.

Uma pessoa pode ter depressão e apresentar um transtorno cognitivo.

Pode ter ansiedade e uma condição neurológica.

Pode viver um luto e apresentar outro problema de saúde.

Por isso, não buscamos uma resposta rápida.

Buscamos uma compreensão adequada.



Observe a relação entre emoção e funcionamento

Algumas perguntas podem ajudar:

O esquecimento piora em períodos de ansiedade?

A pessoa está passando por uma perda?

Houve mudança importante na rotina?

Ela deixou de fazer atividades de que gostava?

Está dormindo mal?

Passa muito tempo sozinha?

Tem demonstrado preocupação excessiva?

Está mais triste ou retraída?

A dificuldade cognitiva muda quando ela está mais tranquila?

Essas informações são importantes durante uma avaliação profissional.



A escuta também pode ser uma intervenção

Não estamos dizendo que conversar substitui tratamento.

Mas a escuta pode ser o primeiro passo para perceber um sofrimento que estava escondido.

Às vezes, a pessoa chega dizendo:

“Minha memória está ruim.”

E, durante a conversa, aparece:

“Perdi meu marido há três meses.”

“Quase não saio mais.”

“Não tenho dormido.”

“Estou cuidando de todo mundo.”

“Tenho medo de ficar doente.”

“Não quero preocupar meus filhos.”

De repente, a queixa cognitiva ganha contexto.

E o cuidado muda.



Cuidar da emoção também pode favorecer a cognição

Quando identificamos sofrimento emocional, o cuidado pode envolver:

- acompanhamento profissional;
- tratamento adequado de depressão ou ansiedade;
- fortalecimento da rede de apoio;
- reconstrução da rotina;
- atividades significativas;
- melhoria do sono;
- convivência social;
- movimento;
- apoio durante o luto;
- redução de sobrecarga;
- espaços de escuta e pertencimento.

Não porque isso seja uma “cura para a memória”, mas porque cognição e vida emocional caminham juntas.



A pessoa precisa de acolhimento, não de medo

Imagine dizer a alguém que já está assustado:

“Você está esquecendo demais.”

“Isso parece Alzheimer.”

“Na sua idade começa assim.”

Essas frases podem aumentar sofrimento e insegurança.

Compare com:

“Percebi que você está preocupada com sua memória. Vamos observar isso com atenção.”

“Quero entender como você está se sentindo.”

“Vamos procurar uma avaliação para descobrir o que pode estar acontecendo.”

A informação continua séria.

Mas a pessoa não é abandonada dentro do medo.


Uma mensagem para refletir

Às vezes, alguém diz:

“Estou esquecendo.”

Mas talvez seu corpo e sua história estejam dizendo:

“Estou cansada.”

“Estou com medo.”

“Estou triste.”

“Estou sozinha.”

“Estou vivendo uma perda.”

“Estou tentando sustentar coisas demais.”

É por isso que não podemos olhar apenas para a falha cognitiva.

Precisamos perguntar o que existe ao redor dela.


“Às vezes, a memória não falha sozinha. Ela se perde no meio de emoções que ninguém percebeu.”
Denise Canabrava


Acolher a emoção não significa ignorar a memória.

Significa compreender que a pessoa é maior do que qualquer sintoma isolado.

Quando alguém disser que sua memória mudou, talvez uma das primeiras perguntas deva ser:

“E como tem estado o seu coração?”

Porque cuidar da cognição também é perceber aquilo que a pessoa sente enquanto tenta continuar vivendo.

Denise Canabrava
Gerontólogo


WORLD HEALTH ORGANIZATION — WHO. Mental health of older adults. Geneva: World Health Organization, 2025. A OMS destaca que condições de saúde mental, como depressão e ansiedade, são relevantes no envelhecimento e precisam ser avaliadas de forma integrada, especialmente quando coexistem com alterações cognitivas e neurológicas.


Organização Mundial da Saúde
WORLD HEALTH ORGANIZATION — WHO. Dementia. Geneva: World Health Organization, atualização de 3 jul. 2026. A OMS reforça que a demência não é consequência natural do envelhecimento e que fatores psicossociais e de saúde podem influenciar o risco e o funcionamento cognitivo.


Organização Mundial da Saúde
LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024. O relatório inclui fatores psicossociais como depressão e isolamento social entre aspectos relevantes para a saúde cognitiva e o risco de demência.


MUNRO, C. E. et al. Recent contributions to the field of subjective cognitive decline. Alzheimer’s & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring, 2023. O trabalho discute a associação entre queixas cognitivas subjetivas, ansiedade, depressão e desempenho em memória e funções executivas.


NATIONAL INSTITUTE ON AGING — NIA. What Is Mild Cognitive Impairment? O instituto destaca que condições como depressão podem estar associadas a problemas de memória e pensamento em pessoas idosas, reforçando a importância de uma avaliação ampla.

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