terça-feira, 8 de setembro de 2026


 

SETEMBRO AMARELO

Quando o silêncio pesa - 
Depressão na pessoa idosa também precisa ser vista
Reconhecer sinais, acolher o sofrimento e buscar ajuda pode salvar vidas

Por Denise Canabrava

Área: Gerontologia | Saúde Mental | Depressão | Prevenção | Cuidado Humanizado


“Nem todo silêncio na velhice é tranquilidade. Às vezes, ele esconde tristeza profunda, solidão, desesperança e um pedido de ajuda que ainda não encontrou palavras.”

Setembro chega trazendo uma campanha que precisa ultrapassar as cores, os laços e as publicações nas redes sociais.

O Setembro Amarelo nos convida a falar sobre valorização da vida e prevenção do suicídio. No Brasil, 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.

Mas existe uma população que também precisa ocupar espaço nessa conversa:

as pessoas idosas.

Quando uma pessoa mais velha começa a se isolar, perder o interesse por atividades que antes lhe davam prazer, demonstra desesperança ou passa a dizer que não faz mais falta, algumas famílias podem interpretar essas mudanças simplesmente como consequências da idade.

E é justamente aí que mora um grande perigo.

Depressão não é uma consequência normal do envelhecimento

Envelhecer envolve mudanças.

Podem ocorrer aposentadoria, lutos, alterações na saúde, redução da mobilidade, mudanças familiares e perdas de papeis sociais. Algumas pessoas também enfrentam solidão, dependência, dificuldades financeiras ou redução de sua participação na comunidade.

Essas experiências podem afetar profundamente a saúde emocional

Mas sofrimento psíquico persistente não deve ser naturalizado como "coisa da idade".

A Organização Mundial da Saúde alerta que depressão e ansiedade estão entre os transtornos mentais mais comuns na população idosa e que problemas de saúde mental nessa fase da vida frequentemente não são reconhecidos nem tratados adequadamente.

Dizer: 

"É normal, ele está velho."

         "Ela ficou assim depois que envelheceu."

         "Idoso é mais quieto mesmo."

         podem fazer com que um sofrimento que necessita de atenção permaneça invisível.


         A pessoa não precisa estar chorando para estar sofrendo

         Esse é um ponto que as famílias precisam conhecer.

        O sofrimento emocional nem sempre aparece na forma que imaginamos.

        Além de tristeza, podem surgir perda de interesse ou prazer, retraimento, alterações do sono, de              fadiga,  irritabilidade, desesperança e pensamentos negativos. 

Na pessoa idosa, também precisamos prestar atenção a mudanças de comportamento, afastamento de familiares e amigos, abandono de atividades significativas e falas que indiquem perda de sentido ou de perspectiva de futuro.

 Nenhum sinal isolado permite diagnosticar depressão.

O diagnóstico deve ser realizado por profissional habilitado.

Mas mudanças persistentes merecem ser percebidas e investigadas. 

  

 Existem frases que não deveriam ser ignoradas

Às vezes, a pessoa não diz diretamente:

“Estou pensando em morrer.”

Ela pode dizer:

“Já vivi o que tinha para viver.”

“Não faço falta para ninguém.”

“Sou um peso para meus filhos.”

“Vocês ficariam melhor sem mim.”

“Não tenho mais motivo para continuar.”

Comentários de desesperança, despedidas, abandono de planos para o futuro e manifestações relacionadas à morte precisam ser levados a sério. O Ministério da Saúde recomenda acolher sem julgamento e buscar ajuda profissional diante de sinais de risco. 

Não é hora de responder:

“Pare de falar bobagem.”

“Você tem tudo e ainda reclama.”

“Isso é falta de força de vontade.”

É hora de escutar.

        

 Perguntar não é suficiente se não estivermos preparados para ouvir

Muitas vezes perguntamos:

“Está tudo bem?”

E recebemos:

“Está.”

Mas alguma coisa no comportamento daquela pessoa diz exatamente o contrário.

Talvez seja necessário permanecer um pouco mais.

Sentar ao lado.

Perguntar novamente.

Ou dizer:

“Tenho percebido você mais quieto ultimamente. Estou preocupado e quero ouvir você.”

Escutar não significa ter todas as respostas.

Significa permitir que o sofrimento encontre um lugar onde possa ser expresso sem julgamento.

Perguntar como alguém está é importante. Estar verdadeiramente disponível para ouvir a resposta é cuidado.

 A Gerontologia amplia nosso olhar

Saúde mental na velhice não pode ser analisada isoladamente.

Precisamos olhar para a pessoa inteira.

Como está sua saúde?

Ela sente dor?

Consegue sair de casa?

Possui autonomia?

Participa das decisões familiares?

Tem com quem conversar?

Mantém vínculos?

Perdeu recentemente alguém importante?

Ainda participa de atividades que considera significativas?

Sente-se pertencente à família e à comunidade?

A OMS chama atenção justamente para fatores como isolamento social e solidão, além de condições de saúde, perdas e outros acontecimentos adversos, na saúde mental das pessoas idosas. 

Isso nos leva a uma reflexão importante:

não basta acrescentar anos à vida se retirarmos da pessoa tudo aquilo que fazia esses anos terem significado.

  

A família pode ser uma poderosa rede de proteção

A família não substitui tratamento profissional.

Mas pode perceber mudanças.

Pode acolher.

Pode acompanhar uma consulta.

Pode incentivar a continuidade do tratamento.

Pode favorecer convivência e participação.

Pode respeitar escolhas e autonomia.

Pode ajudar a reconstruir rotina, vínculos e atividades significativas.

E, principalmente, pode evitar que a pessoa enfrente sozinha um sofrimento que já está pesado demais.

Presença não significa vigiar.

Cuidado não significa controlar.

Estar perto significa fazer com que aquela pessoa saiba que continua pertencendo.

 

VOCÊ SABIA?

Segundo a OMS, aproximadamente 14,1% das pessoas com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno mental. A organização também estima que cerca de um sexto das mortes por suicídio no mundo ocorre entre pessoas com 70 anos ou mais. 

Esses números nos lembram que saúde mental da pessoa idosa não é um assunto secundário.

É questão de saúde pública, cuidado e dignidade. 

 

A GERONTOLOGIA EXPLICA

Depressão tem tratamento

Reconhecer sofrimento não significa determinar que uma pessoa esteja com depressão.

Tristeza, luto e depressão não são sinônimos, embora possam compartilhar algumas manifestações.

Quando existem sintomas persistentes ou mudanças importantes no comportamento e na funcionalidade, é necessária avaliação adequada.

No SUS, a pessoa pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em situações de emergência, os serviços indicados pelo Ministério da Saúde incluem SAMU 192, UPA, pronto-socorro e hospitais. 

 E diante de risco imediato?

Se uma pessoa disser que pretende morrer, apresentar comportamento que indique risco imediato ou estiver em uma crise grave, não a deixe sozinha e procure atendimento de emergência.

O CVV — Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente e 24 horas por dia. 

Centro de Valorização da Vida — CVV

Em uma emergência, também podem ser procurados SAMU 192, UPA, pronto-socorro ou hospital. 

O Disque 100, que aparece em nossa capa, tem outra finalidade: recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas idosas. O serviço é gratuito e funciona 24 horas por dia.

 

AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA

O que este artigo nos ensina?

Talvez uma das formas mais importantes de prevenção seja aprender a não naturalizar o sofrimento da pessoa idosa.

Não presumir que isolamento é simplesmente idade.

Não tratar desesperança como drama.

Não chamar sofrimento emocional de fraqueza.

Não considerar perda de propósito uma consequência inevitável da velhice.

Precisamos continuar oferecendo oportunidades de pertencimento, participação, autonomia, convivência e significado.

Porque cuidar da saúde mental também é perguntar:

“O que ainda faz sentido para você?”

“Do que você sente falta?”

“O que gostaria de voltar a fazer?”

“Como posso estar ao seu lado?”









 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

PORTAL PLENA

 





Meu agradecimento ao Portal Plena pela republicação d meu artigo " O Cérebro de Amanhã Começa a Ser Cuidado Hoje".

https://portalplena.com/o-cerebro-de-amanha-comeca-a-ser-cuidado-hoje/ 

 É muito gratificante ver o conhecimento criando novas raízes e chegando a mais pessoas.

                    Obrigada pelo espaço e pela confiança em nosso trabalho! 

                    Plantamos conhecimento. Cultivamos respeito. Colhemos dignidade.


NOSSA HISTÓRIA COMEÇA NO LAR

 


NOSSA HISTÓRIA COMEÇA NO LAR

Porque nosso lar não é somente um endereço. É memória, identidade, pertencimento e vida.

Por Denise Canabrava

Área: Gerontologia | Envelhecimento no Lugar | Autonomia | Memória | Qualidade de Vida

https://gerontologadenisecanabrava.blogspot.com/ 

 

          “Uma casa pode ser feita de paredes. Um lar é construído de histórias.”

Existe um lugar onde grande parte da nossa história acontece sem que percebamos.

É onde acordamos pela manhã.

Onde guardamos fotografias.

Onde escolhemos o lugar de cada objeto.

Onde recebemos pessoas.

Onde celebramos conquistas e atravessamos perdas.

Onde existem cheiros, sons, móveis, pequenos hábitos e lembranças que talvez não tenham significado para quem chega de fora, mas carregam uma vida inteira para quem mora ali.

Esse lugar é o lar.

E quando envelhecemos, ele pode adquirir um significado ainda mais profundo.

 

Não são apenas quatro paredes

Para compreender a relação da pessoa idosa com sua casa, precisamos abandonar por alguns instantes o olhar puramente físico.

Uma poltrona antiga pode parecer apenas um móvel.

Para alguém, pode ser o lugar onde o companheiro se sentava todas as noites.

Uma xícara pode parecer velha.

Talvez tenha pertencido à mãe.

Uma fotografia na parede pode não combinar com a decoração.

Mas pode guardar cinquenta anos de uma história familiar.

A mesa da cozinha talvez esteja desgastada.

Mas quantas conversas aconteceram ao redor dela?

É por isso que, em Gerontologia, o ambiente não pode ser analisado somente pelo que possui.


Precisamos compreender aquilo que ele representa.

“Eu quero continuar na minha casa”

Essa frase é ouvida por muitas famílias.

Às vezes, os filhos interpretam:

“Meu pai está sendo teimoso.”

“Minha mãe não entende que seria melhor morar conosco.”

Mas talvez exista outra pergunta a fazer:

O que permanecer nessa casa significa para essa pessoa?

Pode significar autonomia.

Privacidade.

Continuidade.

Vizinhança.

Rotina.

Memória.

Pertencimento.

Pode significar continuar indo à mesma padaria, conversando com a vizinha, frequentando a igreja do bairro ou simplesmente acordando e reconhecendo o mundo ao redor.

O conceito internacional de ageing in place, ou envelhecimento no lugar, ajuda justamente a compreender o desejo e a possibilidade de envelhecer no ambiente e na comunidade onde a pessoa construiu vínculos, desde que existam condições adequadas de segurança, suporte e cuidado.

 

O lar também sustenta identidade

Existe algo particularmente importante aqui.

Ao longo do envelhecimento, muitos papéis podem mudar.

A pessoa se aposenta.

Os filhos saem de casa.

O companheiro pode falecer.

O corpo pode apresentar novas limitações.

A rotina se transforma.

Nesse cenário, objetos, ambientes, hábitos e relações construídos ao longo de décadas podem funcionar como referências de continuidade.

É como se aquele espaço dissesse silenciosamente:

“Sua história continua aqui.”

Por isso, modificar completamente o ambiente de uma pessoa idosa sem ouvi-la pode significar muito mais do que trocar móveis.

Pode significar mexer em referências importantes de sua identidade e de sua maneira de viver.

Mas permanecer em casa precisa ser seguro

Valorizar o lar não significa romantizar riscos.

Uma casa que funcionou perfeitamente durante quarenta anos pode precisar de adaptações quando mobilidade, equilíbrio, visão, força ou outras capacidades mudam.

Tapetes soltos podem favorecer quedas.

Iluminação insuficiente pode dificultar deslocamentos.

Banheiros podem necessitar de adaptações.

Objetos utilizados diariamente podem precisar ficar mais acessíveis.

Escadas podem exigir atenção especial.

Aqui surge um princípio importante:

Adaptar a casa não significa retirar dela sua história.

Podemos aumentar a segurança preservando, tanto quanto possível, familiaridade, preferências e participação da pessoa idosa nas decisões.

Adaptar com a pessoa, não apenas para a pessoa

Imagine chegar à sua própria casa e descobrir que alguém retirou seus móveis, mudou objetos de lugar, reorganizou seus pertences e decidiu que aquilo seria “melhor para você”.

Mesmo quando existe uma justificativa de segurança, a forma como fazemos importa.

Sempre que possível, devemos explicar.

Perguntar.

Negociar.

Experimentar soluções.

Ouvir preferências.

Uma adaptação ambiental bem pensada não deveria simplesmente dizer:

“Agora sua casa será assim.”

Deveria perguntar:

“Como podemos tornar sua casa mais segura sem deixar de parecer a sua casa?”

Essa pequena mudança de perspectiva preserva algo precioso:

protagonismo.

Lar, memória e orientação

Ambientes familiares também podem fornecer referências importantes para algumas pessoas com alterações cognitivas.

Fotografias, objetos conhecidos, disposição familiar dos espaços, iluminação adequada, sinalizações simples quando necessárias e rotinas previsíveis podem favorecer orientação e segurança.

Mas novamente precisamos evitar uma solução única para todos.

Cada pessoa possui uma história, capacidades e necessidades diferentes.

O ambiente deve ser pensado para aquela pessoa, e não para uma ideia genérica de “idoso”.

Às vezes, o problema não está dentro da casa

Uma residência pode ser confortável e ainda assim existir isolamento.

Por isso, falar em envelhecer no próprio lar também significa olhar para aquilo que existe do lado de fora da porta.

Há transporte?

Serviços de saúde?

Comércio acessível?

Calçadas seguras?

Vizinhos?

Família?

Amigos?

Espaços de convivência?

Possibilidades de participação social?

Uma pessoa pode morar na mesma casa durante cinquenta anos e, ainda assim, tornar-se prisioneira dela se perder todas as condições de circular e participar da comunidade.

Por isso, envelhecimento no lugar não significa simplesmente:

“deixar a pessoa idosa dentro de casa.”

Significa criar condições para que ela possa continuar pertencendo à vida que existe ao redor dela.

 

VOCÊ SABIA?

A Organização Mundial da Saúde trabalha com o conceito de ambientes amigos das pessoas idosas, destacando que moradia, transporte, espaços públicos, participação social, comunicação, respeito, inclusão e serviços comunitários influenciam a possibilidade de envelhecer com saúde e participação.

Ou seja:

uma cidade também pode ajudar uma pessoa a permanecer autônoma — ou criar barreiras que a tornem dependente.

 

A GERONTOLOGIA EXPLICA

Permanecer em casa nem sempre será a melhor ou a única possibilidade

Defender a autonomia não significa afirmar que toda pessoa deverá permanecer em sua residência independentemente das circunstâncias.

Algumas situações exigirão maior suporte.

Pode ser necessário cuidador, acompanhamento familiar, adaptações significativas, mudança de residência ou, em determinadas circunstâncias, outros arranjos de cuidado.

O princípio fundamental é que essas decisões sejam tomadas com avaliação responsável e, sempre que possível, com participação ativa da própria pessoa idosa.

A pergunta não deveria ser apenas:

“Onde será mais fácil cuidar dela?”

Também precisamos perguntar:

“Onde e como essa pessoa deseja continuar vivendo?”

 

AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA

O que este artigo nos ensina?

Talvez precisemos olhar novamente para a casa de nossos pais e avós.

Não apenas procurando riscos.

Mas procurando histórias.

Aquela toalha antiga.

O rádio.

A planta na janela.

A fotografia amarelada.

A cadeira preferida.

O quintal.

A receita guardada na gaveta.

O café é servido sempre na mesma xícara.

Tudo isso pode parecer pequeno.

Mas uma vida é construída justamente de milhares dessas pequenas coisas.

E quando ajudamos uma pessoa a envelhecer, não estamos cuidando somente de seu corpo.

Estamos cuidando também da continuidade de sua história.

 

PLANTANDO UMA REFLEXÃO

“Quando uma pessoa idosa diz ‘quero ficar na minha casa’, talvez não esteja falando apenas de paredes. Pode estar dizendo: aqui estão minhas lembranças, minhas escolhas, meus vínculos e uma parte de quem eu sou.”

Por isso, antes de reorganizar, retirar, mudar ou decidir, precisamos conversar.

Antes de transformar a casa em um lugar tecnicamente perfeito, precisamos garantir que ela continue sendo um lar.

Seguro, sim.

Adaptado quando necessário.

Mas também reconhecível.

Afetivo.

Vivo.

E pertencente a quem construiu ali sua história.

Porque nosso lar não é somente um endereço.

É um lugar onde a vida cria raízes.




ESSÊNCIA DO NOVAS RAÍZES
NOVAS RAÍZES — Jornal da Gerontologia
Conhecer • Compreender • Cuidar • Valorizar
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ALIMENTAR-SE BEM TAMBÉM É CUIDAR DA AUTONOMIA


  

ALIMENTAR-SE BEM TAMBÉM É CUIDAR DA AUTONOMIA

A importância da alimentação adequada para a saúde e a qualidade de vida da pessoa idosa.

Por Denise Canabrava

Gerontologia - Nutrição - Saúde Funcional - Envelhecimento Saudável

https://gerontologadenisecanabrava.blogspot.com/  


"Na velhice, alimentar-se não é apenas nutrir o corpo. É também preservar força, funcionalidade, memória, autonomia e participação na vida"

Com o passar dos anos, muitas mudanças podem interferir na alimentação. O apetite pode diminuir, o paladar e o olfato podem sofrer alterações, dificuldades de mastigação ou deglutição podem aparecer, medicamentos podem interferir na digestão alimentar e algumas pessoas passam a viver sozinhas, perdendo inclusive o prazer de compartilhar as refeições. 

Por isso, quando falamos em alimentação adequada na pessoa idosa, estamos falando de algo muito maior do que escolher determinados alimentos.

Alimentação adequada: por que ela se torna tão importante?

Uma alimentação adequada contribui para a manutenção da saúde ao longo de toda a vida. Na velhice, porém, alguns aspectos merecem atenção especial.

A perda de massa e força muscular, alterações metabólicas, doenças crônicas, uso de múltiplos medicamentos, problemas dentários, dificuldades de mobilidade e mudanças na rotina podem aumentar a vulnerabilidade nutricional.

Isso significa que simplesmente observar se a pessoa idosa “está comendo” não é suficiente.

Precisamos perguntar:

Ela está conseguindo se alimentar adequadamente?

Tem acesso aos alimentos?

Consegue comprar e preparar suas refeições?

Mastiga e engole com segurança?

Perdeu peso sem querer?

Tem prazer em comer?

Está se alimentando sozinha todos os dias?

Essas perguntas transformam nosso olhar.


Alimentação, músculos e independência

Uma das relações mais importantes é aquela entre nutrição e capacidade funcional.

Manter massa muscular e força é fundamental para atividades aparentemente simples: levantar-se da cadeira, caminhar, tomar banho, vestir-se, preparar uma refeição e sair de casa. 

A alimentação adequada, associada à atividade física compatível com as condições individuais, participa da manutenção da saúde muscular e da funcionalidade.

Por isso, cuidar da alimentação também pode significar cuidar da independência.


O cérebro também se alimenta

A saúde cerebral não está separada da saúde do restante do organismo.

Padrões alimentares saudáveis fazem parte das estratégias recomendadas para promoção da saúde e redução de fatores de risco relacionados a doenças crônicas e ao declínio cognitivo. A OMS inclui a alimentação saudável entre as intervenções consideradas na redução do risco de declínio cognitivo e demência.

Mas aqui precisamos manter uma regra importante do NOVAS RAÍZES:

não existem alimentos milagrosos capazes de impedir sozinhos o desenvolvimento de demência.

Uma alimentação adequada integra um conjunto muito maior de cuidados.


E a água?

A hidratação merece atenção especial.

Com o envelhecimento, a percepção da sede pode diminuir. Além disso, dificuldades de mobilidade, dependência para buscar líquidos, medo de incontinência urinária, alterações cognitivas e determinadas condições clínicas podem interferir na ingestão de água. 

Por isso, a hidratação não deve ser esquecida quando pensamos em cuidado nutricional. 

Também não existe uma quantidade universal de água adequada para todas as pessoas idosas. Necessidades individuais e algumas condições de saúde podem exigir orientações específicas.


Comer também é memória, cultura e afeto

Há algo que os números nutricionais não conseguem medir completamente.

Uma refeição também pode carregar uma história.

O cheiro do café.

Uma receita aprendida com a mãe.

O almoço de domingo.

A comida típica de uma região.

A mesa onde a família se encontrava.

A alimentação possui dimensões biológicas, sociais, culturais e afetivas.

Por isso, promover alimentação saudável não deveria significar apagar a história alimentar da pessoa idosa e entregar-lhe simplesmente uma lista de proibições.

Sempre que possível, o cuidado deve considerar preferências, hábitos, cultura, condições econômicas e capacidade funcional.


A Gerontologia nos ensina a olhar também para o ambiente.

Imagine duas pessoas idosas recebendo exatamente a mesma orientação nutricional.

Uma possui renda adequada, mercado próximo, transporte, boa mobilidade e alguém com quem compartilhar as refeiç~eos.

A outra vive sozinha, possui limitações para cozinhar, dificuldades financeiras e pouca renda de apoio.

A recomendação pode ser igual.

A possibilidade de colocá-la em prática não é.

É justamente aqui que a visão gerontológica amplia a discussão.

Ás vezes, o problema não está em saber o que comer.

Está em conseguir comprar, preparar, mastigar, engolir, servir e ter vontade de comer.


Quando a alimentação merece maior atenção?

Mudanças importantes não devem ser consideradas automaticamente "coisas da idade".

Perda de peso involuntária, redução persistente do apetite, fraqueza, dificuldade para mastigar ou engolir, engasgos frequentes, mudanças abruptas na alimentação ou dificuldade crescente para preparar as próprias refeições merecem avaliação profissional.

E isso é especialmente importante porque tanto a desnutrição quanto o excesso de peso e determinadas deficiências nutricionais podem coexistir com doenças crônicas e comprometer a saúde da pessoa idosa.


VOCÊ SABIA?

O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde,  recomenda que a base da alimentação seja formada por alimentos in natura ou minimamente processados e orienta limitar alimentos processados e evitar os ultraprocessados.  A população também valoriza o ato de comer com regularidade, atenção e, sempre que possível, em companhia.

Isso nos lembra de algo precioso: 

alimentação saudável não se resume aos nutrientes. O modo como comemos também importa.


A GERONTOLOGIA EXPLICA                              

Alimentação adequada não significa alimentação perfeita.

Transformar comida em uma sucessão de medos, culpas e proibições pode retirar justamente uma das dimensões mais humanas da alimentação: o prazer.

Existem situações clínicas que exigem restrições e acompanhamento individualizado. 

Nesses casos, a orientação do nutricionista e da equipe de saúde deve ser respeitada.

Mas, de maneira geral, nosso objetivo não deveria ser perseguir uma alimentação "perfeita".

Deveria ser construir uma alimentação adequada, segura, possível, prazerosa e compatível com a realidade daquela pessoa.


AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA

O que este artigo nos ensina?

Alimentar uma pessoa não significa apenas colocar comida no prato.

Precisamos enxergar quem está diante dele.

Sua saúde.

Sua capacidade funcional.

Sua história.

Sua cultura.

Suas preferências.

Sua condição econômica.

Sua autonomia.

E até quem se senta - ou deixou de se sentar - à mesa com ela.

Porque algumas vezes a intervenção necessária estará no alimento.

Em outras, estará na adaptação dos utensílios, na saúde bucal, na avaliação da deglutição, na organização da rotina, no acesso aos alimentos ou simplesmente na reconstrução do prazer de compartilhar uma refeição.


PLANTANDO UMA REFLEXÃO

"Um prato pode oferecer nutrientes. Mas uma alimentação verdadeiramente cuidadosa precisa também preservar escolhas, histórias, prazer e dignidade."

Cuidar da alimentação da pessoa idosa não é controlar cada garfada.

É criar condições para que ela possa continuar se alimentando com segurança, qualidade e, sempre que possível, autonomia.

Porque uma vida longa precisa de nutrientes.

Mas também precisa de força para continuar, prazer para viver e dignidade para escolher.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines. Second edition. Geneva: WHO, 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Healthy diet. Geneva: WHO. A OMS apresenta princípios de uma alimentação saudável e sua importância na prevenção de doenças não transmissíveis.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: WHO. A abordagem ICOPE inclui a avaliação de aspectos relacionados à vitalidade e ao estado nutricional da pessoa idosa.


ESSÊNCIA DO NOVAS RAÍZES

Portal NOVAS RAÍZES - Portal da Gerontologia 

Onde a ciência encontra o cuidado e o conhecimento cria raízes.

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

 


Deus não criou a mulher para viver aprisionada pelo medo. 

http://gerontologadenisecanabrava.blogspot.com


A mulher foi criada por Deus com dignidade, valor e propósito.

Sua existência não é pequena.

Sua voz não é descartável.

Seus sentimentos não devem ser ignorados.

Seu corpo, sua história e suas escolhas merecem respeito.

Por isso, nenhuma forma de violência pode ser confundida com amor, cuidado, autoridade ou correção.

O amor que vem de Deus não humilha, não ameaça, não controla e não destrói. Ele protege, respeita, acolhe e promove vida.

Quando uma mulher vive em constante medo, perde o direito de falar, é impedida de tomar decisões, tem seu dinheiro controlado, sofre ameaças ou é afastada das pessoas que ama, algo está profundamente errado.

A violência não representa a vontade de Deus.

A fé nunca deve ser usada para justificar o sofrimento

Durante muito tempo, algumas mulheres foram ensinadas a permanecer em silêncio para preservar a família, evitar julgamentos ou demonstrar fidelidade à sua fé.

Mas preservar uma família não significa esconder aquilo que a destrói.

Perdoar não significa aceitar novas agressões.

Ter fé não significa permanecer em perigo.

Ser paciente não significa suportar humilhações sem procurar proteção.

Valorizar o casamento não significa abandonar a própria dignidade.

Nenhuma interpretação religiosa deve ser usada para obrigar uma mulher a permanecer onde sua vida, sua liberdade ou sua integridade estão ameaçadas.

Deus não chama a mulher para viver aprisionada pelo medo.

Ele a chama pelo nome, reconhece suas dores e deseja que sua vida seja tratada com cuidado.

Deus vê aquilo que muitas pessoas não percebem

Existem sofrimentos que permanecem escondidos atrás de sorrisos, rotinas e portas fechadas.

A mulher pode continuar trabalhando, cuidando da casa, frequentando a igreja e cumprindo suas responsabilidades enquanto carrega, em silêncio, uma realidade de medo e opressão.

Mas Deus conhece aquilo que acontece quando ninguém está olhando.

Ele percebe as lágrimas contidas, as palavras não pronunciadas e o pedido de ajuda que ainda não conseguiu se transformar em voz.

O silêncio de uma mulher não significa ausência de sofrimento.

Muitas vezes, significa medo, vergonha, dependência, ameaças ou falta de uma rede segura que possa acolhê-la.

Por isso, a comunidade cristã não deve responder com julgamento. Deve responder com escuta, responsabilidade e proteção.

Acolher também é uma expressão da fé

Quando uma mulher encontra coragem para contar o que está vivendo, ela precisa ser recebida com respeito.

Acolher é dizer:

Eu acredito em você.”

Você não tem culpa pelo que aconteceu.”

Sua segurança importa.”

Você não está sozinha.”

Vamos procurar ajuda com responsabilidade.”

Acolher não é pressionar.

Não é fazer perguntas acusatórias.

Não é exigir decisões imediatas.

Não é contar sua história para outras pessoas sem necessidade.

Acolher é tornar-se uma presença segura.

Às vezes, uma escuta respeitosa é o primeiro lugar de proteção que uma mulher encontra depois de muitos anos.

O verdadeiro cuidado não controla

Controle não é cuidado.

Não é amor quando alguém decide as roupas que a mulher pode usar, vigia seu telefone, impede amizades, controla seu dinheiro, proíbe saídas ou exige obediência por meio de ameaças.

O cuidado verdadeiro não retira a liberdade.

Ele não diminui a pessoa para se sentir maior.

Não transforma autoridade em opressão.

Não usa a fé como instrumento de medo.

Jesus tratou as mulheres com dignidade. Ele as ouviu, acolheu suas histórias e reconheceu seu valor em uma sociedade que muitas vezes tentava silenciá-las.

Seguir esse exemplo significa defender a vida, a dignidade e a proteção de toda mulher.

Mulheres idosas também precisam ser protegidas

A violência contra a mulher não desaparece com o envelhecimento.

Muitas mulheres idosas viveram décadas ouvindo que deveriam suportar tudo caladas. Algumas dependem financeiramente ou fisicamente de pessoas que também podem ser responsáveis por ameaças, negligência, humilhações ou exploração de seus recursos.

A aposentadoria da mulher idosa não pertence aos familiares.

Seus documentos não podem ser retidos.

Sua casa, seus bens e suas decisões não devem ser tomados sem seu consentimento.

Envelhecer não significa perder a voz, a liberdade ou o direito de ser respeitada.

A mulher idosa continua sendo filha amada de Deus, portadora de uma história que merece cuidado e proteção.

Restauração não significa voltar ao lugar que feriu

A restauração cristã não pode ser entendida apenas como a obrigação de reconstruir um relacionamento.

Em algumas situações, restaurar significa recuperar a própria voz.

Significa reencontrar a segurança, fortalecer a autoestima, reconstruir a autonomia e voltar a acreditar que ainda existem caminhos possíveis.

Deus pode restaurar uma mulher sem exigir que ela retorne ao ambiente onde sua dignidade foi ferida.

A restauração pode acontecer por meio de uma rede de apoio, de acompanhamento profissional, da proteção da justiça, do cuidado da família, da comunidade de fé e de pessoas comprometidas com sua segurança.

Recomeçar não é fracassar.

Procurar ajuda não é falta de fé.

Estabelecer limites não é falta de perdão.

Proteger a própria vida também é reconhecer o valor que Deus concedeu a ela.

A Igreja deve ser lugar de proteção

A comunidade cristã precisa ser um espaço onde mulheres encontrem acolhimento, orientação responsável e segurança.

Não basta dizer que estamos orando.

É necessário também ouvir, acreditar, orientar, encaminhar e proteger.

A oração é essencial, mas não deve substituir as medidas concretas de cuidado.

Quando existe risco, a mulher precisa de apoio especializado e de uma rede preparada para ajudá-la.

Uma igreja que acolhe não esconde a violência para preservar aparências.

Ela preserva vidas.

Não protege quem agride.

Protege quem está em situação de vulnerabilidade e busca caminhos responsáveis para interromper o sofrimento.

Existe vida depois da violência

A violência pode ferir a confiança, enfraquecer a autoestima e fazer uma mulher acreditar que perdeu seu valor.

Mas aquilo que alguém fez contra ela não define quem ela é.

Ela continua digna de amor.

Continua merecendo respeito.

Continua tendo direito a sonhar.

Continua sendo capaz de reconstruir sua história.

Deus não a enxerga apenas pelas marcas do que viveu.

Ele vê sua identidade, sua coragem e tudo o que ainda pode florescer.

A restauração pode ser lenta. Pode exigir apoio, tempo, proteção e acompanhamento. Mas nenhum sofrimento precisa ser considerado o capítulo final de uma vida.

Uma mensagem para cada mulher

Você não foi criada para viver com medo.

Você não precisa provar sua fé suportando violência.

Seu valor não depende da aprovação de quem a humilha.

Sua dignidade não desaparece porque alguém tentou destruí-la.

Você merece ser ouvida, acolhida e protegida.

Deus conhece sua história e não despreza sua dor.

Há caminhos de proteção.

Há pessoas preparadas para ajudar.

Há possibilidade de reconstrução.

Que a fé seja para você uma fonte de coragem, e nunca uma corrente que a mantenha presa.

Que o amor de Deus a recorde de quem você é.

Que a proteção encontre o seu caminho.

E que, pouco a pouco, a esperança volte a ocupar os espaços onde o medo tentou permanecer.

Deus não criou a mulher para viver aprisionada pelo medo. Ele a criou com dignidade, cercou sua vida de valor e deseja que sua história continue sendo escrita com liberdade, proteção e esperança.


Denise Canabrava

Gerontóloga

NOVAS RAÍZES — Porque toda vida importa.


sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Quando a Emoção Confunde a Memória

 





Quando a Emoção Confunde a Memória


Ansiedade, tristeza, luto, medo e solidão também podem repercutir na cognição


Às vezes, a pessoa diz:

“Minha memória está péssima.”

“Não consigo prestar atenção.”

“Leio e não lembro.”

“Entro em um lugar e esqueço o que fui fazer.”

E imediatamente surge o medo:

“Será que estou começando com demência?”

Mas nem toda dificuldade de memória começa em uma doença neurodegenerativa.

Em alguns momentos, a mente está tentando funcionar enquanto carrega ansiedade, tristeza, luto, medo, estresse ou solidão.

E quando as emoções ocupam espaço demais, atenção, concentração e memória podem sentir os efeitos.

«Às vezes, a memória não falha sozinha. Ela se perde no meio de emoções que ninguém percebeu.»


Para lembrar, primeiro precisamos conseguir prestar atenção

A memória não começa no momento em que tentamos recordar.

Ela começa antes.

Para que uma informação seja lembrada depois, primeiro precisamos percebê-la, prestar atenção e registrá-la.

Imagine alguém muito ansioso.

Enquanto outra pessoa fala, sua mente está ocupada pensando:

“E se algo acontecer?”

“E se eu esquecer?”

“E se eu não conseguir?”

“E se eu estiver doente?”

Parte da atenção deixa de estar na conversa e passa a estar nas preocupações.

Mais tarde, quando alguém pergunta:

“Você não lembra que eu falei isso?”

a pessoa pode realmente não lembrar.

Não necessariamente porque perdeu a capacidade de memória, mas porque a informação foi registrada de forma inadequada.



A ansiedade pode fazer a mente correr mais rápido do que o presente

A ansiedade mantém o organismo em estado de alerta.

A pessoa antecipa problemas, imagina situações, revisita preocupações e tenta controlar aquilo que ainda nem aconteceu.

Nesse estado, permanecer concentrado em uma única tarefa pode se tornar difícil.

Ela começa uma atividade e pensa em outra.

Lê um texto e precisa retornar várias vezes.

Entra em um cômodo e esquece o que pretendia fazer.

Guarda algo enquanto está preocupada e depois não consegue lembrar onde colocou.

Essas experiências podem assustar.

E o próprio medo de esquecer pode aumentar ainda mais a ansiedade.

Forma-se um ciclo:

ansiedade → dificuldade de atenção → esquecimento → medo → mais ansiedade.

Por isso, uma queixa de memória precisa considerar também o estado emocional.



A tristeza pode diminuir interesse, energia e concentração

Quando uma pessoa atravessa tristeza persistente ou depressão, sua relação com o mundo pode mudar.


Atividades antes prazerosas perdem interesse.

Conversas exigem mais esforço.

A iniciativa diminui.

O sono pode mudar.

O corpo parece mais pesado.

Pensar pode se tornar mais lento.

Em algumas pessoas idosas, sintomas depressivos podem aparecer acompanhados de dificuldades cognitivas importantes.

Por isso, tristeza intensa e alterações de memória não devem ser automaticamente atribuídas ao envelhecimento.

A pessoa precisa ser avaliada em sua totalidade.



O luto também atravessa a cognição

Perder alguém não modifica apenas os sentimentos.

Pode modificar toda a rotina.

A cadeira fica vazia.

As refeições mudam.

A casa fica diferente.


As tarefas que antes eram compartilhadas passam a ser realizadas sozinho.

Há decisões novas.

Silêncio.

Saudade.

Preocupações.

Em meio a tudo isso, a pessoa pode perceber maior distração, dificuldade de concentração e esquecimentos.

O luto exige energia emocional.

E é possível que, durante esse processo, a mente não funcione exatamente como antes.

Isso não significa que todo esquecimento durante o luto seja “normal” e deva ser ignorado.

Significa que o contexto precisa ser considerado.


A solidão também ocupa espaço mental

Solidão não é apenas ficar sozinho.

É sentir falta de vínculo.

É não ter com quem conversar.

É não se sentir lembrado.

É perceber que ninguém pergunta como foi o dia.

Quando a vida vai ficando pobre em encontros, conversas, atividades e experiências significativas, também diminuem as oportunidades de exercitar diferentes funções cognitivas no cotidiano.

Uma conversa exige atenção.

Contar uma história exige organização e memória.

Participar de um grupo exige linguagem, tomada de decisão e interação.

Planejar uma visita exige funções executivas.

Conviver também estimula.

Por isso, a saúde cognitiva não pode ser separada da participação social.



O medo de ter demência também pode piorar a percepção da memória

Existe algo muito interessante: quando uma pessoa começa a ficar excessivamente vigilante em relação à própria memória, cada pequeno esquecimento pode parecer enorme.

Ela esquece um nome.

Pensa:

“Está começando.”

Perde uma chave.

Pensa:

“Tenho alguma coisa.”

Não lembra imediatamente uma palavra.

Pensa:

“Estou piorando.”

A partir daí, começa a observar constantemente cada falha.

Mas talvez não perceba todas as coisas que continua lembrando normalmente.

Esse medo merece ser acolhido.

Dizer apenas:

“Pare de pensar nisso.”

não resolve.

Também não ajuda a confirmar uma doença sem avaliação.

O caminho é escutar e investigar.



A sobrecarga também confunde a memória

Uma pessoa pode estar tentando cuidar da casa, acompanhar familiares, administrar contas, resolver problemas, lidar com doenças, manter compromissos e enfrentar preocupações ao mesmo tempo.

Quanto maior a quantidade de demandas, maior a necessidade de atenção, planejamento e organização.

Às vezes, aquilo que parece uma memória pior pode ser uma vida sobrecarregada.

Perguntar:

“Quanto essa pessoa está tentando sustentar?”

pode ser tão importante quanto perguntar:

“Quanto ela está esquecendo?”



Emoção e cognição não vivem em compartimentos separados

Durante muito tempo, fomos acostumados a pensar:

ou é psicológico,

ou é físico,

ou é cognitivo.

Mas a pessoa não funciona assim.

Emoções alteram atenção.

Sono interfere no humor.

Dor afeta concentração.

Isolamento muda a rotina.

Doença física pode gerar medo.

Preocupação pode prejudicar o sono.

Tudo se relaciona.

Por isso, um cuidado verdadeiramente gerontológico não fragmenta a pessoa.

Ele tenta compreender como diferentes dimensões estão interferindo umas nas outras.



Não diga apenas: “É ansiedade”

Também existe um perigo no sentido contrário.

Depois de perceber que emoções podem afetar a cognição, não devemos começar a explicar todo esquecimento dizendo:

“Isso é ansiedade.”

“É só emocional.”

“Você está pensando demais.”

Isso também pode atrasar uma avaliação necessária.

Problemas emocionais e alterações neurocognitivas podem coexistir.

Uma pessoa pode ter depressão e apresentar um transtorno cognitivo.

Pode ter ansiedade e uma condição neurológica.

Pode viver um luto e apresentar outro problema de saúde.

Por isso, não buscamos uma resposta rápida.

Buscamos uma compreensão adequada.



Observe a relação entre emoção e funcionamento

Algumas perguntas podem ajudar:

O esquecimento piora em períodos de ansiedade?

A pessoa está passando por uma perda?

Houve mudança importante na rotina?

Ela deixou de fazer atividades de que gostava?

Está dormindo mal?

Passa muito tempo sozinha?

Tem demonstrado preocupação excessiva?

Está mais triste ou retraída?

A dificuldade cognitiva muda quando ela está mais tranquila?

Essas informações são importantes durante uma avaliação profissional.



A escuta também pode ser uma intervenção

Não estamos dizendo que conversar substitui tratamento.

Mas a escuta pode ser o primeiro passo para perceber um sofrimento que estava escondido.

Às vezes, a pessoa chega dizendo:

“Minha memória está ruim.”

E, durante a conversa, aparece:

“Perdi meu marido há três meses.”

“Quase não saio mais.”

“Não tenho dormido.”

“Estou cuidando de todo mundo.”

“Tenho medo de ficar doente.”

“Não quero preocupar meus filhos.”

De repente, a queixa cognitiva ganha contexto.

E o cuidado muda.



Cuidar da emoção também pode favorecer a cognição

Quando identificamos sofrimento emocional, o cuidado pode envolver:

- acompanhamento profissional;
- tratamento adequado de depressão ou ansiedade;
- fortalecimento da rede de apoio;
- reconstrução da rotina;
- atividades significativas;
- melhoria do sono;
- convivência social;
- movimento;
- apoio durante o luto;
- redução de sobrecarga;
- espaços de escuta e pertencimento.

Não porque isso seja uma “cura para a memória”, mas porque cognição e vida emocional caminham juntas.



A pessoa precisa de acolhimento, não de medo

Imagine dizer a alguém que já está assustado:

“Você está esquecendo demais.”

“Isso parece Alzheimer.”

“Na sua idade começa assim.”

Essas frases podem aumentar sofrimento e insegurança.

Compare com:

“Percebi que você está preocupada com sua memória. Vamos observar isso com atenção.”

“Quero entender como você está se sentindo.”

“Vamos procurar uma avaliação para descobrir o que pode estar acontecendo.”

A informação continua séria.

Mas a pessoa não é abandonada dentro do medo.


Uma mensagem para refletir

Às vezes, alguém diz:

“Estou esquecendo.”

Mas talvez seu corpo e sua história estejam dizendo:

“Estou cansada.”

“Estou com medo.”

“Estou triste.”

“Estou sozinha.”

“Estou vivendo uma perda.”

“Estou tentando sustentar coisas demais.”

É por isso que não podemos olhar apenas para a falha cognitiva.

Precisamos perguntar o que existe ao redor dela.


“Às vezes, a memória não falha sozinha. Ela se perde no meio de emoções que ninguém percebeu.”
Denise Canabrava


Acolher a emoção não significa ignorar a memória.

Significa compreender que a pessoa é maior do que qualquer sintoma isolado.

Quando alguém disser que sua memória mudou, talvez uma das primeiras perguntas deva ser:

“E como tem estado o seu coração?”

Porque cuidar da cognição também é perceber aquilo que a pessoa sente enquanto tenta continuar vivendo.

Denise Canabrava
Gerontólogo


WORLD HEALTH ORGANIZATION — WHO. Mental health of older adults. Geneva: World Health Organization, 2025. A OMS destaca que condições de saúde mental, como depressão e ansiedade, são relevantes no envelhecimento e precisam ser avaliadas de forma integrada, especialmente quando coexistem com alterações cognitivas e neurológicas.


Organização Mundial da Saúde
WORLD HEALTH ORGANIZATION — WHO. Dementia. Geneva: World Health Organization, atualização de 3 jul. 2026. A OMS reforça que a demência não é consequência natural do envelhecimento e que fatores psicossociais e de saúde podem influenciar o risco e o funcionamento cognitivo.


Organização Mundial da Saúde
LIVINGSTON, G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024. O relatório inclui fatores psicossociais como depressão e isolamento social entre aspectos relevantes para a saúde cognitiva e o risco de demência.


MUNRO, C. E. et al. Recent contributions to the field of subjective cognitive decline. Alzheimer’s & Dementia: Diagnosis, Assessment & Disease Monitoring, 2023. O trabalho discute a associação entre queixas cognitivas subjetivas, ansiedade, depressão e desempenho em memória e funções executivas.


NATIONAL INSTITUTE ON AGING — NIA. What Is Mild Cognitive Impairment? O instituto destaca que condições como depressão podem estar associadas a problemas de memória e pensamento em pessoas idosas, reforçando a importância de uma avaliação ampla.

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