NOVAS RAÍZES
JORNAL DA GERONTOLOGIA | ESPECIAL — LONGEVIDADE E SOCIEDADE
DESAFIOS DO ENVELHECIMENTO
NO BRASIL
Estamos vivendo mais. Mas estamos preparados para cuidar de uma população que envelhece?
Por Denise Canabrava — Gerontóloga
“O grande desafio do Brasil não é apenas acrescentar anos à vida. É garantir que esses anos sejam vividos com dignidade, participação, proteção e oportunidades.”
1. O Brasil está envelhecendo. E essa transformação diz respeito a todos nós.
Durante muito tempo, o Brasil foi reconhecido como um país predominantemente jovem.
Entretanto, nossa estrutura populacional está mudando.
As famílias estão tendo menos filhos, a expectativa de vida aumentou ao longo das últimas décadas e a proporção de pessoas idosas vem crescendo.
Essa transformação representa uma conquista coletiva relacionada a avanços sanitários, científicos e sociais.
Mas também exige novas respostas.
Afinal, não basta reconhecer que existem mais pessoas idosas.
Precisamos perguntar se nossas cidades são acessíveis, se os serviços de saúde estão preparados, se as famílias recebem apoio e se existem oportunidades reais de convivência, aprendizagem e participação social.
Precisamos perguntar, principalmente, se estamos construindo uma sociedade onde envelhecer não signifique perder direitos, voz ou pertencimento.
O envelhecimento populacional não é um problema a ser combatido. É uma realidade que precisa ser compreendida e planejada.
2. O que os números revelam sobre o envelhecimento brasileiro?
BRASIL — CENSO DEMOGRÁFICO 2022
32,1 milhões Pessoas com 60 anos ou mais
15,8% Da população brasileira
56% Crescimento no número de pessoas idosas entre os censos de 2010 e 2022
37,8% Participação projetada para 2070, segundo a revisão de 2024
Fontes: IBGE, Censo 2022 e Projeções da População — Revisão 2024.
O Brasil de amanhã terá uma participação muito maior de pessoas idosas
Proporção de pessoas com 60 anos ou mais na população brasileira: dado censitário de 2022 e projeção demográfica para 2070.
Os valores de 2070 são projeções, não resultados observados.
Mas existe algo que os números não conseguem mostrar sozinhos.
Por trás de cada estatística, existe uma pessoa.
Uma mulher que trabalhou durante décadas e hoje precisa escolher entre comprar medicamentos e pagar despesas domésticas.
Um homem que deseja continuar independente, mas encontra dificuldades para caminhar pelas calçadas de sua cidade.
Uma senhora que vive sozinha e passa dias sem receber visitas.
Um cuidador familiar que ama profundamente seu pai, mas enfrenta exaustão por não ter uma rede de apoio.
O envelhecimento brasileiro não pode ser compreendido apenas pela quantidade de anos vividos. Precisamos compreender as condições em que esses anos são vividos.
3. O desafio da saúde: viver mais não significa estar livre de necessidades de cuidado
O aumento da longevidade exige que os sistemas de saúde estejam preparados para acompanhar pessoas com diferentes condições clínicas e funcionais.
Hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, alterações osteoarticulares, dificuldades sensoriais e condições neurocognitivas podem exigir acompanhamento contínuo.
Entretanto, envelhecer não significa necessariamente adoecer ou perder autonomia.
Muitas pessoas idosas permanecem ativas, independentes, produtivas e socialmente participativas.
O desafio é oferecer atenção adequada à diversidade das trajetórias de envelhecimento.
Isso inclui prevenção, acompanhamento de doenças crônicas, reabilitação, atenção à saúde mental, cuidados paliativos quando indicados e suporte às atividades cotidianas.
A Organização Mundial da Saúde destaca a importância de sistemas integrados de saúde e cuidados de longa duração, capazes de responder às necessidades reais das pessoas idosas.
A pergunta não deve ser apenas: “Qual doença essa pessoa apresenta?”
Precisamos perguntar também:
“O que ela ainda consegue fazer? O que deseja continuar fazendo? E de quais apoios necessita para viver com qualidade?”
4. Desigualdade social: nem todos envelhecem nas mesmas condições
No Brasil, as oportunidades de envelhecer com saúde são profundamente influenciadas pelas condições de vida.
Renda, escolaridade, alimentação, moradia, saneamento, acesso aos serviços de saúde, condições de trabalho e redes de apoio podem repercutir ao longo de toda a trajetória de vida.
Uma pessoa que passou décadas realizando trabalho físico intenso, sem proteção adequada, pode chegar à velhice com necessidades diferentes daquelas de quem teve acesso contínuo a melhores condições de trabalho e assistência.
Da mesma forma, envelhecer em uma região com poucos serviços especializados apresenta desafios distintos daqueles encontrados em áreas com maior infraestrutura.
Isso significa que o envelhecimento não é determinado apenas pela biologia.
Ele também carrega as marcas das oportunidades e dificuldades vividas ao longo dos anos.
Não podemos falar de envelhecimento saudável sem falar de desigualdade social.
5. O cuidado familiar: quando o amor encontra o limite do cansaço
Imagine uma filha que trabalha durante o dia e, ao retornar para casa, assume os cuidados de sua mãe.
Ela organiza medicamentos, acompanha consultas, prepara refeições, ajuda na higiene e administra as necessidades domésticas.
Faz tudo isso com carinho.
Mas também sente cansaço.
Às vezes, precisa faltar ao trabalho.
Adia compromissos pessoais.
Dorme pouco.
E começa a sentir que não consegue oferecer o cuidado que gostaria.
Essa situação não deve ser interpretada simplesmente como falta de dedicação.
Ela revela a necessidade de compreender o cuidado como uma responsabilidade que precisa de suporte familiar, comunitário, profissional e institucional.
A OMS destaca que, na ausência de sistemas formais suficientes de cuidados de longa duração, os custos financeiros e de tempo frequentemente recaem sobre as famílias, especialmente sobre as mulheres.
Por isso, discutir o envelhecimento brasileiro também significa discutir formação de cuidadores, serviços de apoio, cuidado domiciliar, descanso do cuidador e proteção social.
“Uma sociedade que deseja cuidar bem de suas pessoas idosas também precisa aprender a cuidar de quem cuida.”
6. Solidão, isolamento e saúde emocional
Nem toda pessoa que mora sozinha sente solidão.
E nem toda pessoa que vive acompanhada se sente acolhida.
A solidão é uma experiência subjetiva, relacionada à percepção de que os vínculos sociais não correspondem às necessidades afetivas da pessoa.
O isolamento social, por sua vez, refere-se à redução objetiva de contatos e relações.
Ambos merecem atenção, mas não são a mesma coisa.
Na velhice, mudanças familiares, perdas afetivas, aposentadoria, dificuldades de mobilidade e barreiras de acesso à comunidade podem modificar as relações sociais.
Entretanto, não devemos presumir que toda pessoa idosa seja solitária.
O desafio é construir oportunidades de convivência e participação respeitando as preferências individuais.
Centros de convivência, atividades culturais, projetos intergeracionais, grupos comunitários e iniciativas de educação ao longo da vida podem contribuir para ampliar essas oportunidades.
Pertencer é mais do que estar cercado de pessoas. É sentir que nossa presença continua tendo significado.
7. Etarismo: quando a idade se transforma em motivo de exclusão
O etarismo é a discriminação relacionada à idade.
Ele pode aparecer de maneiras explícitas ou silenciosas.
Quando alguém afirma que uma pessoa idosa não consegue aprender porque já passou de determinada idade.
Quando suas opiniões são ignoradas em decisões familiares.
Quando um profissional fala apenas com o acompanhante, mesmo que a pessoa tenha condições de responder.
Quando uma oportunidade de trabalho ou participação é negada por pressupostos relacionados à idade.
Essas atitudes podem comprometer a autoestima, a autonomia e a participação social.
O Estatuto da Pessoa Idosa protege a liberdade, o respeito e a dignidade, incluindo a preservação da identidade, das ideias, dos valores e da autonomia.
Envelhecer não retira de ninguém o direito de aprender, decidir, participar e ser ouvido.
8. Violência contra a pessoa idosa: uma realidade que exige proteção
A violência contra pessoas idosas pode ocorrer no ambiente familiar, institucional ou comunitário.
Ela não se limita às agressões físicas.
Também pode envolver violência psicológica, patrimonial, financeira, sexual, negligência e abandono.
Às vezes, manifesta-se no controle indevido do dinheiro.
Na humilhação cotidiana.
Na privação de cuidados necessários.
Na ameaça.
Na imposição de decisões sem respeito à pessoa.
O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece mecanismos de proteção contra negligência, discriminação e violência.
PROTEÇÃO É UM DIREITO
O Disque 100 recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas idosas, gratuitamente, 24 horas por dia. Familiares, vizinhos, profissionais e qualquer cidadão podem denunciar situações suspeitas.
Disque 100
Em situações de perigo imediato, procure os serviços de emergência.
O enfrentamento da violência depende de informação, proteção institucional, acompanhamento e fortalecimento das redes de apoio.
9. Cidades que envelhecem: nossas ruas estão preparadas?
Imagine um senhor que deseja caminhar até a praça de seu bairro.
Ele possui disposição para sair de casa, mas encontra calçadas irregulares, ausência de bancos para descanso, travessias inseguras e pouca sombra.
Sua dificuldade de participação não depende apenas de suas condições físicas.
Também está relacionada às características da cidade.
O envelhecimento populacional exige atenção à mobilidade urbana, ao transporte público, à acessibilidade, à segurança e aos espaços de convivência.
Uma cidade preparada para o envelhecimento beneficia também crianças, pessoas com deficiência, gestantes e cidadãos com mobilidade temporariamente reduzida.
Uma sociedade amiga da pessoa idosa é, em muitos aspectos, uma sociedade melhor para todas as idades.
10. Inclusão digital: quando a tecnologia facilita, mas também pode excluir
Agendar consultas, acessar benefícios, utilizar serviços bancários e comunicar-se com familiares são atividades cada vez mais mediadas por tecnologias digitais.
Esses recursos podem ampliar possibilidades.
Mas também podem criar barreiras.
Uma pessoa idosa que não domina determinado aplicativo não deve ser considerada incapaz.
Talvez nunca tenha recebido orientação adequada.
Talvez a interface apresente letras pequenas.
Talvez o procedimento seja complexo ou pouco acessível.
A solução não deve ser simplesmente retirar da pessoa o controle de suas atividades.
Precisamos investir em educação digital, acessibilidade, atendimento humano e prevenção de golpes.
A tecnologia deve aproximar as pessoas dos seus direitos — não criar novas formas de exclusão.
VOCÊ SABIA?
O Brasil também precisa preparar seus sistemas de cuidados de longa duração
O cuidado de longa duração envolve apoios contínuos a pessoas que apresentam dificuldades para realizar atividades da vida diária.
Esses apoios podem ocorrer no domicílio, na comunidade ou em instituições.
Um estudo brasileiro publicado em 2024, com gestores e responsáveis técnicos de instituições de longa permanência, identificou desafios relacionados ao financiamento, aos recursos humanos, à assistência à saúde e às exigências institucionais.
Isso reforça a importância de planejar serviços, qualificar equipes e desenvolver respostas sustentáveis às diferentes necessidades de cuidado.
A GERONTOLOGIA EXPLICA
Envelhecimento populacional não é a mesma coisa que envelhecimento individual
O envelhecimento individual envolve transformações biológicas, psicológicas e sociais ao longo da vida.
Já o envelhecimento populacional corresponde à mudança na composição etária de uma sociedade, com aumento da participação relativa das pessoas idosas.
Esses processos se relacionam, mas exigem respostas diferentes.
Dimensão |
Pergunta fundamental |
|---|---|
Saúde |
Como prevenir agravos e preservar a funcionalidade? |
Autonomia |
Como garantir escolhas e participação? |
Proteção social |
Como reduzir vulnerabilidades e desigualdades? |
Cuidado |
Como apoiar pessoas que necessitam de assistência contínua? |
Cidade |
Como construir ambientes acessíveis? |
Educação |
Como promover aprendizagem ao longo da vida? |
Direitos |
Como prevenir discriminação, negligência e violência? |
A Gerontologia contribui justamente por integrar essas diferentes dimensões.
AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA
O Brasil precisa aprender a enxergar a longevidade de maneira diferente
Envelhecer não deve ser apresentado apenas como aumento de despesas, necessidade de assistência ou crescimento de doenças.
As pessoas idosas também são trabalhadoras, cuidadoras, educadoras, artistas, voluntárias, líderes comunitárias e participantes fundamentais da vida social.
Possuem conhecimentos, experiências, desejos e projetos.
Algumas necessitam de cuidados intensivos.
Outras vivem com ampla independência.
Muitas apresentam necessidades e capacidades que variam ao longo do tempo.
Não existe uma única maneira de envelhecer.
Por isso, uma política pública adequada precisa reconhecer a diversidade da população idosa e oferecer respostas proporcionais às suas diferentes realidades.
O desafio não é fazer com que todas as pessoas envelheçam da mesma maneira.
É garantir que nenhuma seja desvalorizada por envelhecer de maneira diferente.
PLANTANDO UMA REFLEXÃO
O Brasil está envelhecendo. Mas será que está aprendendo a respeitar a velhice?
Talvez o maior desafio do envelhecimento brasileiro não esteja apenas nos hospitais, nas estatísticas ou nos sistemas de previdência.
Talvez também esteja na maneira como olhamos para uma pessoa que envelheceu.
Quando deixamos de escutá-la.
Quando confundimos lentidão com incapacidade.
Quando acreditamos que cuidar significa decidir tudo por ela.
Quando esquecemos que, por trás de cada necessidade, existe uma história.
O Brasil precisa preparar suas instituições.
Precisa fortalecer a atenção à saúde.
Precisa apoiar famílias e cuidadores.
Precisa enfrentar a violência, o preconceito e a desigualdade.
Mas também precisa aprender algo essencial:
A pessoa idosa não é apenas alguém que necessita de proteção. É alguém que continua pertencendo à sociedade, exercendo direitos e construindo sua própria história.
Uma sociedade verdadeiramente preparada para envelhecer não será medida apenas pela quantidade de anos que seus cidadãos conseguem viver.
Será reconhecida pela maneira como acolhe esses anos.
Pelas oportunidades que oferece.
Pelo respeito que preserva.
Pela autonomia que protege.
E pela dignidade que garante.
“O Brasil não precisa apenas se preparar para ter mais pessoas idosas. Precisa se preparar para ser um país onde envelhecer continue significando viver com direitos, escolhas e pertencimento.”
Porque o envelhecimento é uma conquista.
E a dignidade precisa acompanhar essa conquista.
Referências científicas e institucionais
IBGE. Censo Demográfico 2022 — População por idade e sexo. Consultar dados do Censo.
IBGE. Projeções da População — Revisão 2024. Consultar projeções.
Organização Mundial da Saúde. Long-term care for older people: package for universal health coverage. 2024.
Organização Mundial da Saúde. World Report on Ageing and Health. 2015.
Oliveira, L. P.; Silva, H. S. Challenges to the operation of Brazilian LTCIs and changes in oversight. BMC Geriatrics, 2024.
Brasil. Estatuto da Pessoa Idosa — Lei nº 10.741/2003, com alterações posteriores. Consultar legislação.
NOVAS RAÍZES — Jornal da Gerontologia
Plantamos conhecimento. Cultivamos respeito. Colhemos dignidade.
Denise Canabrava — Gerontóloga
gerontologadenisecanabrava.blogspot.com


.png)