segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O CÉREBRO PODE ENCONTRAR NOVOS CAMINHOS



O CÉREBRO PODE ENCONTRAR NOVOS CAMINHOS 

Plasticidade cerebral e reorganização funcional no envelhecimento 

Por Denise Canabrava Área: Gerontologia | Neuroplasticidade | Reabilitação Cognitiva | Envelhecimento | Funcionalidade 

“A plasticidade cerebral nos ensina que mudar não significa apagar o caminho anterior. Às vezes, significa encontrar outra maneira de chegar.” 

Durante muito tempo, difundiu-se a ideia de que o cérebro chegaria à vida adulta praticamente pronto e que, a partir de determinada idade, restaria apenas um processo progressivo de perda. Hoje sabemos que essa visão é limitada. 
O cérebro envelhece. Algumas de suas características se modificam. A velocidade de determinados processos pode diminuir e doenças ou lesões podem comprometer funções importantes. Mas existe outra parte dessa história: 

o cérebro continua capaz de responder às experiências. 

Aprender, praticar, movimentar-se, enfrentar desafios e desenvolver estratégias podem produzir adaptações no funcionamento cerebral. 
É nesse território que encontramos um dos conceitos mais fascinantes das neurociências: a neuroplasticidade. 

Afinal, o que é plasticidade cerebral? 

De maneira simples, plasticidade cerebral é a capacidade do sistema nervoso de modificar sua organização e seu funcionamento em resposta às experiências, à aprendizagem, ao ambiente e também a determinadas lesões. 
Essas mudanças podem ocorrer em diferentes níveis, envolvendo conexões entre neurônios e padrões de atividade de redes cerebrais. 
Mas é preciso evitar uma interpretação quase mágica da palavra “plasticidade”. 
Ela não significa que o cérebro possa recuperar qualquer função perdida, nem que qualquer exercício produza necessariamente grandes modificações cerebrais. 
A plasticidade possui limites e varia conforme idade, condição de saúde, natureza e extensão de uma lesão, experiências anteriores, características individuais e intervenção realizada. 
O cérebro possui possibilidades. 
Mas essas possibilidades precisam ser compreendidas com ciência. 


E o que significa reorganização funcional? 

Imagine uma cidade. 
Durante anos, as pessoas utilizam determinada avenida para chegar a um destino. Um dia, parte daquela via fica comprometida. 
O trânsito não simplesmente desaparece. 
Dependendo das condições, outras rotas podem passar a ser utilizadas, estratégias podem ser desenvolvidas e o sistema pode reorganizar parte de seu funcionamento. 
É apenas uma metáfora — o cérebro é muito mais complexo —, mas ela nos ajuda a compreender a ideia de reorganização funcional. 
Depois de uma lesão neurológica, por exemplo, processos de recuperação podem envolver mudanças na forma como redes cerebrais participam de determinadas funções. 
É por isso que a reabilitação pode trabalhar tanto com restauração de habilidades, quando possível, quanto com compensação e desenvolvimento de estratégias. 
Às vezes, o objetivo não será fazer exatamente como antes. 
Será descobrir: 

“Como essa pessoa pode voltar a realizar aquilo que é importante para sua vida?” 

E essa pergunta muda tudo. 


Mas isso acontece também no cérebro da pessoa idosa? 

Sim. A capacidade de adaptação não desaparece simplesmente porque alguém completou 60, 70 ou 80 anos. 
Há evidências de que pessoas idosas podem se beneficiar de formas estruturadas de treinamento cognitivo. O grande estudo ACTIVE, por exemplo, acompanhou 2.832 participantes e encontrou benefícios em habilidades cognitivas específicas após treinamento; resultados em raciocínio e velocidade de processamento persistiram por anos em parte dos participantes. 
Isso não significa que exista um “exercício milagroso para o cérebro”.  
O próprio National Institute on Aging alerta que os resultados obtidos em estudos estruturados não podem ser automaticamente atribuídos aos aplicativos e jogos comerciais vendidos como brain training. 
Essa diferença precisa chegar às famílias. 


Fazer palavras-cruzadas é reabilitação cognitiva? 

Não necessariamente. 
Palavras-cruzadas podem ser uma atividade prazerosa e cognitivamente estimulante. 
Assim como leitura, jogos, música, aprender uma língua, fotografia, artesanato e inúmeras outras atividades. 
Mas estimulação cognitiva não é automaticamente reabilitação cognitiva. 
A reabilitação parte de necessidades identificadas, objetivos individualizados e estratégias direcionadas à funcionalidade da pessoa. 
Se alguém apresenta dificuldades de memória depois de uma condição neurológica, por exemplo, talvez o objetivo não seja simplesmente fazer vinte exercícios de memória. 

Talvez seja conseguir: 
lembrar compromissos; organizar a medicação; preparar uma refeição; retomar uma atividade; utilizar agenda ou outros recursos compensatórios; orientar-se melhor na rotina; participar novamente de algo que possui significado. 

A pergunta deixa de ser: 

“Quantos exercícios essa pessoa acertou?” 

e passa a ser: 
“O que ela voltou a conseguir fazer em sua vida?” 

O cérebro aprende melhor quando existe significado Esse é um ponto em que a Gerontologia acrescenta algo precioso. 
Não existe apenas um cérebro sendo treinado. 
Existe uma pessoa vivendo. Imagine dois exercícios. 
No primeiro, pedimos a uma senhora que memorize uma lista aleatória de palavras. 
No segundo, trabalhamos estratégias para ajudá-la a organizar os ingredientes da receita que preparou durante décadas para sua família. Ambos podem envolver processos cognitivos. 
Mas o segundo possui algo adicional: 
história, emoção, identidade, funcionalidade e significado. 

Por isso, a reabilitação contemporânea procura cada vez mais considerar objetivos relevantes para a vida cotidiana. 

O NIA também destaca que atividades significativas e cognitivamente exigentes — incluindo aprendizagem de novas habilidades — são investigadas por seus possíveis benefícios cognitivos, embora ressalte que ainda não existe evidência definitiva de efeitos duradouros para todas essas atividades. 

 O cérebro não vive separado do corpo 

Quando falamos em potencializar condições favoráveis à plasticidade cerebral, não podemos colocar toda a esperança em uma mesa cheia de jogos cognitivos. 
O cérebro recebe sangue. 
Precisa de oxigênio. 
Depende do sono. 
Interage com os sistemas sensoriais. 
Responde ao movimento. 
É influenciado pela saúde cardiovascular e metabólica. 
Está inserido em relações sociais e experiências emocionais. 
Por isso, saúde cerebral exige uma visão muito mais ampla. 
A OMS, em sua abordagem ICOPE para o cuidado integrado da pessoa idosa, considera conjuntamente cognição, mobilidade, vitalidade, visão, audição, capacidade psicológica e necessidades sociais, justamente porque funcionalidade no envelhecimento não pode ser compreendida olhando cada dimensão isoladamente. 

Cuidar do cérebro é também cuidar das condições em que esse cérebro vive. 

Relações também desafiam o cérebro 

Conversar. Contar histórias. Ensinar uma receita. Participar de um grupo. Aprender a utilizar uma tecnologia. Dançar. Cantar. Planejar uma viagem. Cuidar de plantas. Participar de uma atividade comunitária. Resolver um problema cotidiano. 
Tudo isso exige diferentes combinações de atenção, memória, linguagem, planejamento, percepção, movimento e emoção. 
Talvez uma das maiores perdas para o cérebro que envelhece não seja simplesmente deixar de fazer “exercícios cognitivos”. 
Pode ser deixar de receber oportunidades de participar da vida. 


Repetição importa — mas desafio também 

Para que uma habilidade seja aprendida, geralmente precisamos de prática. 
Mas repetir mecanicamente uma atividade indefinidamente não significa necessariamente que estaremos produzindo ganhos relevantes para outras situações. 
É importante que exista um desafio adequado: 
nem tão fácil que praticamente não exija esforço; 
nem tão difícil que produza apenas frustração. 
E, sempre que possível, precisamos perguntar se aquilo que está sendo trabalhado consegue chegar à vida cotidiana. 
Esse problema é chamado de transferência ou generalização dos ganhos. 
O próprio NIA vem discutindo como os resultados de treinamento cognitivo podem ser traduzidos em desfechos realmente significativos para participantes e familiares — não apenas em melhor desempenho na tarefa treinada. 

VOCÊ SABIA? 
Um dos maiores estudos de treinamento cognitivo realizado com pessoas idosas foi o ACTIVE — Advanced Cognitive Training for Independent and Vital Elderly, com 2.832 participantes. Os participantes receberam treinamento direcionado a memória, raciocínio ou velocidade de processamento. Os resultados demonstraram que pessoas idosas saudáveis continuam capazes de melhorar habilidades cognitivas treinadas, e alguns benefícios foram observados anos depois. 
Isso nos ensina algo importante: 

idade não significa incapacidade de aprender. 
Mas também ensina prudência: melhorar uma habilidade treinada não significa automaticamente prevenir demência ou melhorar todas as funções cognitivas. A ciência precisa permanecer acima da promessa. 

A GERONTOLOGIA EXPLICA 

Plasticidade não é promessa de cura

Esse talvez seja o cuidado editorial mais importante deste artigo. 
Expressões como: 
“reprograme seu cérebro”; 
“reverta o envelhecimento cerebral”; 
“faça este exercício e crie novos neurônios”; 
“treine 15 minutos e evite Alzheimer”
podem transformar conceitos científicos reais em promessas que a ciência não sustenta. 

Há evidências promissoras para treinamento cognitivo e intervenções relacionadas ao estilo de vida, mas permanecem questões importantes sobre quais intervenções funcionam melhor, para quem, por quanto tempo e quanto os benefícios se transferem para o cotidiano. O NIA continua financiando ensaios justamente para responder a essas perguntas. 
Plasticidade é possibilidade biológica. 
Reabilitação é processo. 
Resultado é individual. 

AS RAÍZES DA GERONTOLOGIA 
O que este artigo nos ensina? 

Talvez tenhamos passado tempo demais perguntando: 
“O que essa pessoa idosa já não consegue fazer?” 
A neuroplasticidade e a reabilitação nos convidam a acrescentar outras perguntas: 
O que permanece preservado? 
O que pode ser treinado? 
O que pode ser adaptado? 
Que estratégia pode compensar uma dificuldade? 
Que atividade ainda possui significado? 
Que apoio permitiria maior participação? 

A segunda edição do ICOPE, da OMS, reforça justamente uma abordagem centrada na pessoa, com avaliação das capacidades e necessidades e elaboração de um plano de cuidado personalizado voltado à funcionalidade. É uma mudança profunda. Não olhar somente para a perda. 
Olhar também para as possibilidades que permanecem ao redor dela. 


PLANTANDO UMA REFLEXÃO 
“Talvez reabilitar não seja obrigar o cérebro a voltar pelo mesmo caminho. Às vezes, é ajudá-lo — e ajudar a pessoa — a descobrir outra maneira de chegar.” 

O cérebro envelhece. 
Pode sofrer alterações. 
Pode enfrentar doenças. 
Pode perder eficiência em determinados processos. 
Mas continua inserido em um organismo capaz de experimentar, praticar, aprender e desenvolver estratégias. 
Por isso, diante de uma pessoa idosa, talvez devêssemos abandonar definitivamente uma das frases mais limitantes que existem: 
“Na sua idade, não adianta mais.” 
E substituí-la por uma pergunta: 


“O que ainda podemos construir a partir daqui?” 
Porque potencializar possibilidades não significa prometer o impossível. 
Significa não desistir prematuramente do possível. 
E enquanto houver possibilidade de participação, aprendizagem, adaptação e significado, ainda existem caminhos a serem construídos. 



 Referências principais  

National Institute on Aging (NIA). Cognitive Health and Older Adults — síntese das evidências sobre treinamento cognitivo, atividade física, aprendizagem e saúde cognitiva na velhice. 

National Institute on Aging (NIA). Preventing Alzheimer's Disease: What Do We Know? — discussão das evidências e limitações do treinamento cognitivo e de intervenções relacionadas ao estilo de vida. 

National Institute on Aging (NIA). Advanced Cognitive Training for Independent and Vital Elderly (ACTIVE) — estudo de referência sobre treinamento cognitivo em pessoas idosas. 

World Health Organization (WHO). Integrated Care for Older People (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care, 2nd ed. — cuidado integrado, capacidade intrínseca, funcionalidade e plano individualizado para a pessoa idosa. 

World Health Organization (WHO). ICOPE Training Programme — Cognition. A OMS inclui estimulação cognitiva, exercício multimodal e apoio às famílias entre as abordagens consideradas no cuidado da pessoa idosa com comprometimento cognitivo. 


ESSÊNCIA DO NOVAS RAÍZES NOVAS RAÍZES — 
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Plantamos conhecimento. Cultivamos respeito. Colhemos dignidade.

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